VAETCHANAN

VAETCHANAN

(4.8.2001 / 15 de Av de 5761)

Parashah – Dt.3:23-7:11.

Haftarah – Is.50:1-26.

Comentário:

1. Oração de Moisés para entrar em Canaã. Dt.3:23-29.

“Eterno D-us! Tu começaste a mostrar ao teu servo a Tua grandeza e a Tua forte mão; pois, que D-us há nos céus e na terra que faça Tuas obras, e como Teus feitos extraordinários! Deixa-me passar, rogo-te, e verei a boa terra, que está além do Jordão, este bom monte (Com estas palavras, Moisés queria designar a cidade de Jerusalém a qual se acha rodeada de montes: e com o “Líbano”, ele queria dizer o lugar em que futuramente se iria construir o Templo) e o Líbano”.

Apesar da veemente oração de Moisés a D-us, para entrar na Terra Prometida, D-us já o havia advertido ele não entraria, e com esta oração, até irritou-se, pois disse a Moisés que não mais tocasse neste assunto. Apenas permitiu que subisse ao outeiro, levantasse os olhos para o ocidente, para o norte, para o sul e para oriente, porque não passaria o Jordão.

2. Exortação e obediência. Dt.4:1-43.

Considerando o que havia sucedido à geração anterior, Moisés apela fervorosamente para Israel a fim de que não cometa o mesmo erro, que guarde a lei e a ponha em ação. Se obedecesse à Lei viveria e tomaria posse da Canaã.

Outro motivo para obedecer a D-us era que somente Israel tinha o alto privilégio de ser seu povo. Somente para Israel o Eterno estava tão perto. Havia-lhes falado com voz audível e com eles havia firmado um concerto.

Notamos o zelo de D-us. Como o marido que dá a sua esposa amor sem reserva e exige dela lealdade, assim D-us exige a mais absoluta fidelidade de seu povo. Moisés adverte solenemente que o fato de apartar-se de D-us para prestar culto aos ídolos traria como conseqüência à dispersão dos hebreus. Por outro lado, o arrependimento traria restauração.

Quando Moisés fala ao povo, geralmente emprega o pronome “vós” (4:1-8, 11-18. 20-23), mas algumas vezes pensa em seus integrantes individualmente e usa o pronome “tu” (4:9,10; 19:1-21). Em outras oportunidades ele próprio se inclui em sua nação e se expressa com a primeira pessoa do plural “nós” (2:8).

3. Os dez mandamentos e sua aplicação. Dt.4:44- 6:3.

Os dez mandamentos eram a base da aliança que o Eterno fez a Israel. Chamam-se “testemunhos” (4:45), pois constituem a revelação do caráter, da vontade e do propósito divino. A lei declara que D-us é Uno e Santo. Aponta, também, o caminho que o homem deve seguir para viver em harmonia com o seu Criador e com o próximo.

O decálogo começa com as palavras: “Eu sou o Senhor teu D-us, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (5:6). O Eterno exige obediência porque : a) É D-us, o Soberano; b) Estabeleceu relação pessoal com o seu povo. A expressão “Teu D-us” ou sua equivalente encontra-se mais de trezentas vezes no Livro de Deuteronômio e é a base da verdadeira fé. Lembra a relação que existe entre um pai e seus filhos; c) O Eterno redimiu a seu povo da servidão, portanto espera que os redimidos obedeçam à sua voz.

A diferença ente o decálogo apresentado aqui e o de Êxodo 20 encontra-se no quarto mandamento. Para observar o dia de descanso, Deuteronômio adiciona outra razão além de que o Criador tenha descansado; os israelitas haviam sido resgatados da servidão do Egito e deviam dar a seus servos e animais de trabalho o dia de descanso semanal (5:14,15).

4. O grande mandamento! Dt.6:4,5

Conhecemos este versículo por Shemah, pois é a primeira palavra e se traduz por “ouve”. Essa é a oração judaica mais freqüentemente pronunciada, a afirmação mais insistente que os devotos fazem desde a infância até a morte. É a única e sincera declaração de há um só D-us, um só Criador, o Eterno!

5. A religião no lar. Dt.6:6-9.

“Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos”.

Os pais não devem depender da instrução pública da religião mas devem instruir os filhos nos lares. Os israelitas muitas vezes falharam neste dever e apostataram na fé, porém pela misericórdia do Eterno, retomavam ao caminho de uma vida com D-us.

Devemos passar a religiosidade aos nossos filhos, desde a mais tenra idade, para que quando maduros tenham uma base sólida, capaz de suportar os ventos de teorias religiosas.

6. Advertência contra a idolatria e exortações à obediência. Dt.6:10-7:11.

Moisés previu o perigo de que os israelitas, uma vez estabelecidos na terra de Canaã se esquecessem de seu D-us e servissem a deuses estranhos. Advertiu também a Israel quanto à covardia, quanto à auto-suficiência, e proibiu-lhes buscar acordo com as nações derrotadas. D-us escolheu Israel para ser um povo santo, especial (7:6), “o seu povo próprio, de todos os povos que sobre a terra há” (14:2).

Shabat Shalom!

As rosas de Lídice

Se me tivesse nascido mais uma filha, ela teria se chamado Lídice, dentro da tradição judaica que manda perpetuar o nome daqueles que amamos.


Detalhe do monumento às crianças de Lídice, assassinadas pelos nazistas. A mancha verde no centro da foto é um caramelo de hortelã. Os visitantes deixam ali brinquedos e guloseimas, em um gesto impotente, como se fosse possível resgatá-las da morte e do sofrimento, meio século depois da tragédia.

Lídice não é o nome de uma pessoa em particular, mas o de uma aldeia tcheca, de 450 habitantes, que os nazistas arrasaram em junho de 1942, matando todos os homens (191) e deportando as mulheres para os campos de concentração. Das crianças só escaparam as que possuíam as supostas características arianas (olhos azuis, cabelos louros, crânio dolicocéfalo). Foram entregues a famílias alemãs, para serem criadas como verdadeiros alemães.

A pequena aldeia não tinha nenhum pecado a pagar. Situada na bacia carbonífera de Kladno, os dias ali rolavam como se estivessem pregados em uma roda: eram absolutamente iguais uns aos outros e se repetiam a cada semana. Os homens trabalhavam nas minas. Quando voltavam para casa, tinham a esperá-los as suas mulheres de aventais bordados e os filhos pequenos.

Por que, então, Lídice? Apenas porque os nazistas precisavam mostrar a crueldade de que eram capazes para intimidar recalcitrantes.

Não era o caso de Lídice, que mal tomava conhecimento do que se passava além dos seus estreitos limites. Porém, uns dias antes, em 29 de maio, Reinhard Heydrich, chefe de Segurança do III Reich, que pessoalmente assumira o protetorado da Boêmia e da Morávia, para acabar com a resistência por parte dos tchecos, sofreu atentado a bomba. Morreu cinco dias depois, em 4 de junho. Apesar de nada ter a ver com o atentado, Lídice foi escolhida como exemplo.

Heydrich era uma figura macabra. Oficial da Marinha alemã, expulso por conduta imoral, ingressou na Gestapo e se tornou o segundo homem da organização, logo abaixo de Himmler. Odiado e temido pelos próprios nazistas, deles recebeu o apelido de Heydrich, o Verdugo.

Os tchecos, traídos pelos ingleses e pelos franceses em 1938, perderam o seu território, mas nunca se submeteram aos alemães. Em 1941, quando Konstantin von Neurath revelou-se incapaz de reprimir as manifestações dos patriotas tchecos, Heydrich manobrou os cordéis e conseguiu substituí-lo no Protetorado da Boêmia e da Morávia. Os horrores que ali cometeu e o terror que infundiu às pessoas lhe valeram novo apelido: o Carniceiro de Praga.

Sua crueldade foi vã, como de resto todas as crueldades. A resistência tcheca recrudesceu e dois patriotas, Jan Kubis e Josef Gabeik, refugiados na Grã-Bretanha, desceram de pára-quedas perto de Praga, naquele dia, para cometer o atentado. Equipados pelos britânicos, conseguiram fugir sob a proteção de uma cortina de fumaça e se esconderam na Igreja de São Carlos Borromeu em Praga, cujos padres davam refúgio a todos os perseguidos pelo nazismo.

A Gestapo, para vingar a morte de Heydrich, excedeu-se na selvageria. Segundo um dos relatórios da organização, apreendido pelos aliados ao término da guerra, 1331 tchecos, que nada tinham a ver com o atentado, foram imediatamente fuzilados. A Igreja de São Carlos Borromeu foi cercada, e as 120 pessoas que lá haviam se refugiado, foram massacradas. A Gestapo, por trágica ironia, ignorava que os dois matadores de Heydrich estavam entre elas.

As represálias da Gestapo não cessaram aí. Mas de tudo o que aconteceu naqueles dias, a civilização guarda com horror a violência praticada contra Lídice. Mal rompera o dia, em 9 de junho, Lídice foi cercada por um contingente comandado pelo capitão Max Rostock. Todos os habitantes - homens, mulheres e crianças - foram trancados nos celeiros de uma pequena fazenda. Ninguém podia deixar a aldeia, mas foi permitido o retorno dos que já tinham saído naquela manhã. Quando os nazistas chegaram, um menino assustou-se e correu. Uma velha desesperada tentou escapar pelos campos. Os dois foram abatidos com tiros nas costas.

No dia seguinte, começaram os fuzilamentos. Todos os homens, maiores de 18 anos - no total de 172 - foram executados. Dezenove, que estavam trabalhando nas minas de Kladno, e sete mulheres que estavam fora da aldeia na ocasião, foram depois conduzidos a Praga, para serem mortos.

Havia quatro mulheres grávidas em Lídice. Levadas para uma maternidade em Praga, os bebês foram mortos ao nascer e elas, encaminhadas para o campo de extermínio de Ravensbrueck, para onde já tinham sido enviadas as outras mulheres da aldeia.

Liquidada a população, os nazistas incendiaram a aldeia e depois dinamitaram as ruínas para que não restasse pedra sobre pedra. Terminada a guerra, o governo tcheco reconstruiu Lídice como monumento nacional. Mineiros de todo mundo contribuíram para um memorial, cuja parte maior é constituída por um canteiro de rosas vermelhas.

Dezessete crianças, das que foram levadas pelos alemães, puderam ser localizadas depois da guerra. Elas e mais as mulheres que conseguiram sobreviver ao extermínio nos campos de concentração voltaram para a nova Lídice, onde permaneceram como testemunhas da bestialidade nazista.

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Se me perguntarem porque escrevi estas linhas, fora de data e aparentemente fora de propósito, só tenho uma resposta: as rosas. Olhava para rosas, quando me lembrei de Lídice. Eram rosas vermelhas e elas me levaram às rosas rubras brotadas do sangue, da dor e da paixão dos inocentes, que um dia alguém tingiu com o branco dos sepulcros.

Então me lembrei de uma filha que não me nasceu, de Lídice, dos bebês de Lídice, que nasceram e não sobreviveram, lembrei-me dos sonhos assassinados em cada dia que deixamos de viver.

Por isso, escrevi.

A Rosa do Gueto

Em 21 de setembro de 1939, quase três semanas após o início da II Guerra Mundial, Reinhardt Heydrich, chefe da Polícia de Segurança do Terceiro Reich, enviou circular aos seus subordinados, com instruções para o que os nazistas chamavam de “Solução Final” - o extermínio da população judaica nos territórios ocupados.

Em 20 de janeiro de 1942, ao encerrar a mais importante conferência realizada no Departamento Central de Assuntos Raciais, Heydrich determinou que a “Solução Final” fosse apressada. No cumprimento das ordens, o “gauleiter” da Polônia, Hans Frank, recusou-se a fornecer alimentação às 450 mil pessoas confinadas no Gueto de Varsóvia, em espaço que só comportava 150 mil.

Tinha 15 anos. Chamava-se Rosa, como muitas mulheres do seu povo.

No Gueto, todos passavam fome e tinham medo. Rosa sentia-se só e aturdida. Quando olhava para cima, o universo era feito de sol, de azul, de nuvens brancas. Quando olhava para frente, o mesmo universo ficava cinzento e escorria pelo chão coberto de detritos, para terminar abrupto junto ao muro.

Foi ali que ela encontrou a roseira quase fanada e coberta de pó.

A partir de 22 de julho de 1942, os nazistas acionaram ao máximo a máquina de horrores. Em menos de um ano, somente 60 mil pessoas sobreviviam no Gueto. As demais tinham morrido de fome ou assassinadas quando procuravam ultrapassar o muro em busca de comida. E também enviadas às câmaras de gás.

Schmilek a viu ajoelhada junto ao muro. Pensou que ela enlouquecera.

- Rosa, que fazes? - perguntou aflito.

Ela sorriu. Apontou a roseira.

- Estava quase morta. Acho que a salvei.

Schmilek respirou fundo e movimentou as mãos num cacoete de impaciência muito próprio dos homens de seu povo. Ficou só no gesto. Aquele sorriso apagava o muro cinzento e os seios de Rosa arfavam, na esperança da vida ressurgente.

Em janeiro de 1943, Himmler fez visita de surpresa a Varsóvia. Não ficou nada satisfeito quando soube que ali ainda restavam 60 mil judeus.

Suas ordens foram terminantes: - liquidação total até 15 de fevereiro.

Rosa o chamou alvoroçada:

- Schmilek!… a roseira!…

Ele olhou a planta. Um pequeno botão despontava. Tentou falar, dizer o que estava acontecendo no Gueto, mas desistiu. Dentro dos olhos de Rosa só havia flores. Ela não se sentia mais só nem aturdida.

Então Schmilek sorriu um sorriso muito difícil, também feito das lágrimas contidas a custo.

Os alemães encontraram dificuldades para cumprir as ordens de Himmler. O desastre de Stalingrado e as contínuas retiradas do exército nazista da frente russa provocaram escassez de transportes. Era impossível retirar os judeus do Gueto em tão pouco tempo, para conduzi-los aos campos de extermínio.

Só em março, a operação pôde ser iniciada. Mas sobreveio novo obstáculo: os judeus começaram a resistir. Então, foi ordenada a destruição do Gueto e o massacre de seus habitantes.

Quanto o botão desabrochou, a rosa apareceu muito vermelha. Ela pediu:

- Colhe a rosa, Schmilek. Colhe e me oferece.

Havia muito de céu nos olhos de Rosa. E também um apelo de amor.

Era o momento de contar a verdade.

- Rosa, nós vamos morrer.

A dor brotou dos olhos da menina, apagando o céu e o apelo de amor. O silêncio desceu entre os dois.

Schmilek tomou-lhe a mão. Caminharam até onde havia uma fenda no muro.

- Olha.

Rosa viu um soldado alemão. Ansiosa, buscou alguma coisa que o fizesse diferente. Só podia ver que o soldado era de carne e osso como eles.

- Ele não gosta de rosas? - perguntou, sem conseguir entender.

Schmilek aconchegou-a o junto a si, procurando algo que a consolasse.

- Ele gosta de rosas - murmurou.

- Por quê, então?

- Disseram-lhe que éramos maus. Que o odiávamos. Agora acha que somos maus e nos odeia.

- Vamos falar com o soldado, Schmilek. Vamos mostrar a rosa. Dizer que é mentira. Que somos bons, que amamos a todos. Ele nos amará também. Todos seremos felizes.

Schmilek sacudiu os ombros em desânimo. Falou quase sem inflexão:

- Inútil. Não acreditaria. Rosa calou-se.

Voltou para a roseira. Começou a acariciar a flor recém desabrochada, como se a estivesse gerando em suas próprias entranhas. De repente, irrompeu em alegria:

- Vai nascer outro botão! Vai nascer outro botão, Schmilek! Preciso cuidar dele, também!

Schmilek não resistiu mais. Os soluços o sacudiam. Não pôde evitar que as palavras lhe saíssem aos gritos:

- Mesmo sabendo que vamos morrer, insistes nesta idéia maluca de cuidar de rosas!?

Rosa não se alterou. Pelo contrário, estava calma. E eternamente calma, colheu a flor e beijou suas pétalas.

- Só por que alguém não acredita em nosso amor, devemos esquecer as rosas?

Em 19 de abril, o general nazista Stroop atacou o Gueto com blindados, artilharia, lança-chamas e dinamite.

Os judeus tinham somente alguns fuzis e duas metralhadoras. Assim mesmo, refugiados na rede de esgotos, lutaram até 16 de maio, quando foram vencidos pelo fogo que os nazistas atearam no Gueto.

Toda a resistência cessou ao ser dinamitada a grande sinagoga da rua Tlomacki.

Não podiam esperar mais.

- Vamos - convidou Schmilek, apontando o caminho dos esgotos.

Ela vacilava.

- E a minha rosa?

- Traze-a contigo. Estaremos juntos, os três.

- Não, a rosa precisa viver. E sem que Schmilek entendesse o gesto, jogou a flor por cima do muro. Depois, foi a escuridão dos esgotos.

Hans Frank, gauleiter da Polônia, olhou feliz para a flor que estava em cima de sua mesa de trabalho. Um soldado a tinha encontrado, lhe dissera o general Stroop. Era tudo que restava do Gueto.

Frank afagou o rosto com a flor, para sentir a maciez das pétalas. De alma leve, flutuando em bem-aventurança, começou o relatório:

“O Gueto de Varsóvia deixou de existir…”

 
… para que as rosas não passem
e os tiranos não fiquem …