Ki Tetzé

1.9.2001 / 13 de Tishrei de 5761.

Parashah : Ki Tetzé. Dt.21:10 – 25:19
Haftarah : Is.54:1 – 10

Comentário:

A presente parashah trata de várias leis de conduta, é uma seqüência da parashah anterior, pois aborda questões como escravidão, divórcio, das proibições de relações sexuais entre determinas pessoas com laços de parentesco, dos eunucos, dos que derramam sêmen de forma deficiente, a higiene com relação ao lugar em que habitam especialmente com relação ao lugar em que defeca (Dt.23:13), a questão de cobrar juros, o pagamento do salário justo.

Estaremos enfocando dos itens supra, a escravidão, o concubinato, a poligamia e o divórcio, pois eram tolerados, mas muito restritos (Dt.21:10-17; 23:15,16; 24:1-4; Ex.21:2-11). A escravidão não existia em grande escala,como em outras nações, e as leis mosaicas quanto a estas infelicidades eram muito humanitárias. D-us permitiu estes abusos porque os hebreus ainda não estavam preparados para a elevada moral.

Moisés não instituiu o divórcio mas tolerava um costume arraigado já em Israel. A lei mosaica aliviava um pouco sua injustiça, pois obrigava o homem a ter uma ofensa completa como causa para repudiar sua mulher e dar-lhe um certificado legal de repúdio. O repúdio da mulher limitava-se a uma única causa: haver o marido descoberto nela alguma “coisa indecente” (24.1). Embora não seja explícito o que é uma coisa indecente, fica claro que era prostituição. Se o homem repudiava sua mulher, ela tinha a possibilidade de casar-se com outro homem, porém nunca mais com seu primeiro marido. Era uma advertência contra o divórcio precipitado. À semelhança de outros males, o divórcio era permitido “por causa da dureza dos vossos corações”.

Shabat Shalom!

UM TERRÍVEL PARADOXO

Israel - Terra Santa, tanto faz. Alguns cartazes nas empresas de turismo oferecem viagens à Terra Santa, outros a Israel. A oferta é a mesma. Quando se diz que alguém vai a Israel todos sabem que vai a Terra Santa. Esse pequeno país do Oriente Médio possui uma aura de santidade, é o cenário da maior parte da história bíblica, daí a sua importância na história da fé ocidental. Mesmo para os cristãos católicos, o valor espiritual da Terra Santa não se compara ao de Roma, pois são lugares de importância e significados muito distintos. Mas até que ponto estes dois termos - Israel e Terra Santa - são sinônimos? Que implicações traz isso a Israel e seu povo ? Quais os efeitos da santidade da Terra e da divina escolha do povo judeu (dimensão bíblica - religiosa) na relação com o mundo ocidental?

Estamos diante de dois termos que possuem o mesmo valor, mas que podem indicar duas realidades diferentes: o país judeu e centro espiritual das três religiões monoteístas. Diferenças que devem ser observadas e respeitadas. No mesmo espaço geográfico há um país., Israel, comum, como qualquer outro, com seus feitos e desfeitos. Com problemas de internos e externos para administrar. Que mantém relações diplomáticas dentro das normas internacionais. Está também envolvido nas contingências da ordem política, econômica e cultural do ocidente. Enfim, é um país comum de um povo comum. Talvez esta é seja a melhor maneira de situar Israel. Assim as expectativas sobre ele não fossem tão grandes. Talvez o mundo não fizesse do mínimo o máximo, e tudo o que acontece naquela pequena região do Oriente Médio tivesse a sua real importância no contexto mundial. Até, quem sabe, o país judeu pudesse conversar a sós com seu vizinhos e chegar a um acordo positivo.

Penso, às vezes, que Israel tem a síndrome do filho perfeito. Nunca pode errar, nunca pode perder e deve ser sempre exemplar. Ora, se Israel não fosse comum, se seu povo não fosse igual a outros, não teria o mérito. E se é exemplar, não pode ser perfeito, pois seria um modelo inatingível.

O termo Terra Santa, expressão de origem bíblica, refere-se ao outro lado da mesma moeda. Sim, Israel é Terra Santa. Mas o é, não por suas pedras e águas, mas sim, pelo seu povo e pelos seus feitos do passado e do presente. A santidade não nasce feita, não cai do céu atingindo involuntariamente as pessoas. A santidade é opcional, quem a escolhe a busca nas suas condições humanas. A santidade de Israel, originária dos tempos bíblicos, tem sua validade e continuidade à medida em que seu povo administra o seu território, o torna habitável e fértil, possibilita o desenvolvimento social dentro da justiça e da democracia, respeita o valor de seus indivíduos. Se ainda não há perfeição em Israel, há, com certeza, um caminho para isto.

Na realidade estas duas formas de denominar o mesmo país nos põe diante de um paradoxo. Uma condição quase que incompreensível: um país e um povo comum que quer ser tratado e respeitado como tal é, ao mesmo tempo, Terra Santa de um povo escolhido por Deus para ser um sinal entre as nações. Quero acreditar que haja no mundo um reconhecimento tal da sua missão exemplar para os povos que justifique essa grande expectativa sobre Israel e seu povo. Mesmo assim, não aliviaria o peso imposto sobre esta divina escolha. Esta honra toda não facilita a vida, pelo contrário, traz sofrimento. Todos que conhecem a história de José, filho de Jacó, sabem o quanto custou a ele a sua bela túnica listrada. Espero que as nações saibam aproveitar o “alimento” que Israel deu ao mundo, assim como José alimentou seus irmãos. Assim, ao menos, estaria justificado o fardo muitas vezes imposto à este país e a este povo.

SHÓFETIM

25.08.2001 / 6 DE Elul de 5761.

SHOFETIM – JUIZES.

Parashah – Dt.16:18 - 21:9
Haftarah – Is.51:12 - 52:12

Comentário:

Lendo o livro de Deuteronômio, temos conhecimento da dimensão da parashah desta semana. Embora tenhamos estendido o comentário ao capítulo 26, pois é até este capítulo que versa sobre leis de justiça e de humanidade.

Visto que em Israel governava uma teocracia (governo de D-us), as funções civis e religiosas se uniam para que tudo caísse sob a direção divina.

1 - Administração da justiça : (16:18-17:13). Os juízes seriam escolhidos pelo povo hebreu, como representantes de D-us e para proteger os direitos de seu povo, deviam julgar com imparcialidade.

2 - Instruções acerca de um rei : (17:14-20). No devido tempo, D-us daria um rei a Israel. Moisés antecipava as condições sob as quais haveria de estabelecer-se o seu reinado. São os seguintes:

Devia ser eleito por D-us. Seria Israelita, e não estrangeiro. Saul e Davi cumpriram estes requisitos, mas terão seu cumprimento mais completo, segundo as profecias, no Reinado do Messias.

Isto significa que o rei não devia depender do poderio militar nem de alianças com outras nações, mas do poder Divino. Tampouco devia imitar os outros reis orientais com uma demonstração de glória terrenal.

Não devia tomar para si muitas mulheres; devia ser espiritual, e não sensual. Tampouco devia casar-se com a finalidade de formar alianças com outras nações.

Não devia amontoar riquezas para si, isto é, não devia usar seus poderes com finalidades egoístas, mas para servir ao povo de D-us. Porque onde está o tesouro, ali também estará o coração .

Devia o rei escrever para si uma cópia da Lei. O rolo original das escrituras de Moisés estava guardado no santuário. Os levitas e sacerdotes haviam de entregar a cada rei uma cópia quando este fosse coroado. Desta maneira, o soberano podia ler diariamente a Palavra Divina com o fito de temer a D-us, de sujeitar-se à lei revelada e de tomar suas decisões segundo a vontade de D-us. Tal proceder acrescentam instruções para o rei, limitando seu poder (Para que o seu coração não se levante sobre os seus irmãos, 17:20). D-us não queria que os reis de Israel fossem soberanos absolutos nem déspotas arbitrários sobre o povo do concerto, mas subalternos do Rei Celestial.

3 - As porções dos levitas : (18:1-8) Considerando que o Eterno protegeu a vida dos primogênitos na noite de Pessach, estes lhe pertenciam (Êx.13:1, 2; 11-16). D-us tomou os levitas em lugar dos primogênitos (Nm.3:11,12) para servir no tabernáculo, ensinar a Lei e ajudar os sacerdotes. Portanto, não receberiam território como as demais tribos. “O Eterno é a sua herança” 10:9. Estariam dispersos por todas as partes a fim de que seus serviços estivessem ao alcance de todo o povo hebreu e deviam ser sustentados pelos dízimos dos israelitas.

4 - Os profetas e o Profeta : (18:9-22). Encontra-se aí a promessa de D-us de que levantaria uma ordem de profetas com a proibição de recorrer a adivinhos e a espiritistas. Através dos séculos o homem tem desejado conhecer o futuro e ver além. Deste desejo nasceu o espiritismo, o qual é formado de muitos fragmentos de religiões pagãs, inclusive invocando espírito de mortos (ato condenado por D-us), enganando a todos que buscam consulta aos médiuns. Moisés ordenou aos israelitas que erradicassem por completo, a prática de adivinhações, de espiritismo e de magia.

Não era necessário consultar os espiritistas para saber o futuro, porque D-us enviaria profetas verdadeiros e suas credenciais seriam de tal sorte que não deixariam lugar para dúvidas. Seriam profetas do Eterno e não de outro deus (18:20). O homem que se lança ao ofício profético sem ser chamado por D-us, é um profeta falso. Os autênticos não profetizariam de seu próprio coração mas falariam somente as palavras que D-us lhes desse (18:18). Suas palavras se cumpriram infalivelmente (18:22). Não obstante, podia ocorrer, em certos casos, que falsos profetas operassem milagres e se cumprissem suas palavras, mas ficariam a descoberto através de sua doutrina em desacordo com a de D-us (13:1, 2). D-us permitiria que fizessem sinais para provar a seu povo a fim de que se manifestasse se o amavam ou não (13:3). Finalmente, o verdadeiro profeta honraria a Palavra escrita de D-us (Is.8:19, 20).

5 - As cidades de refúgio : (19:1-14; Nm.35:6-28). Segunda as antigas leis de Israel, quando alguém feria ou matava uma pessoa, embora fosse por acidente, podia ser morto pelo parente mais próximo da vítima. Este se chamava “vingador do sangue”. Moisés indicou três cidades ao oriente do Jordão que serviriam de asilo aos que matassem a outros por acidente. Josué separou outras três cidades ao ocidente do mesmo rio.

Os anciãos da cidade julgavam o fugitivo para ver se tinha ou não culpa de homicídio. Se havia matado sem má intenção ou por casualidade, podia ficar na cidade e estar seguro dentro de seus limites. Se, porém, saísse, o vingador do sangue tinha o direito de matá-lo. Se ficasse aí até que morresse o sumo sacerdote, então tinha liberdade de voltar ao seu lar sem maior perigo.

Isto mostra que D-us nos julga não segundo nossos atos por si mesmos, mas segundo a intenção do coração. O asilo era somente para o matador involuntário.

6 - Leis diversas : (19:15 - 21:9). Uma vez que as leis que se encontram nestes capítulos são muitas e a maioria delas corresponde a uma época passada, consideraremos somente algumas dessas leis.

a – A lei se mostra atenciosa quanto ao serviço militar (20:5-8). Aquele que acabava de construir uma casa nova, ou de semear uma vinha, ou de contrair matrimônio, estava isento do serviço militar. Não eram aceito homens medrosos, pois não seriam bons guerreiros e seu medo seria contagioso.

b – Os israelitas deviam destruir completamente os cananeus e suas cidades (20:16-18). Os propósitos eram que a religião do Eterno não fosse contaminada com os costumes pagãos.

Acreditamos que pelo pautado na parashah desta semana, podemos ter uma pálida idéia de como D-us exigiu do seu povo eleito, como D-us é imutável, as exigências divina vigoram até os dias de hoje, pois D-us observa o levantar, o andar e o deitar de cada um de nós. Convém então que cada um de nós busque ao máximo uma vida dentro dos ditames do Eterno.

Shabat Shalom !

Judeus de Bombacha e Chimarrão


Falar dos judeus em Portugal, é repetir, em mais negras tonalidades, o que com eles acontecera na Espanha Cristã. Tal qual na Espanha, sua presença em terras de Portugal é constatada desde tempos imemorais. Precederam em muito o aparecimento do Condado Portucalense. O seu número se aproximava, segundo Alexandre Herculano, da metade da população autóctone.

Ainda tal qual na maioria dos países cristãos, partiram do seio da Igreja católica os primeiros acordes da sinfonia antijudaica. No linguíssmo tempo que antecede o advento do século XIX, o século da igualdade para os judeus portugueses, o fatídico slogan “batismo ou morte” esteve sempre presente, não obstante constituírem os judeus a classe mais culta e empreendedora do país.

É verdadeiramente inconcebível que para pecadores ou culpados irremisso, cujos “crimes” só a morte redimiria, bastassem apenas alguns respingos de água-benta para absolvê-los e reintegrá-los em privilégio e honrarias. Uns inocentes respingos a decidirem sobre o direito à vida.

Mas… para os inculpados não se tratava de gotas inocentes. Seu significados tinha um conteúdo pleno de imposícões violentas. Violentavam a liberdade de consciência, a dignidade humana, o direito de ser. Implicavam renegar crenças e convicções. Afrontavam o conceito bíblico de que o “homem foi feito à imagem de Deus”. Abjurar ou morrer… E para a exaltação do ser humano, para sua eterna glória, milhares e milhares de judeus, entre eles o brasileiro Antônio José da Silva, preferiram a morte!

O grito da turba ignara, açulada pelo clero – “matemo-los e roubemo-los” –, denuncia brutalmente a principal razão dos ataques contra os judeus. Alexandre Herculano diz revelar esse grito a causa principal de tanto ódio: a pilhagem.

Assim decorreram alguns séculos. Intervalos de tranquilidade também houve, mas cada um deles, ao primeiro pretexto, a violência se desencadeava, não poupando velhos, mulheres, crianças e bens. Nem mesmo os que haviam baqueado, aceitando o batismo – os chamados cristãos-novos – escapavam da fúria bestial.

Entre os crimes hediondos, certamente os que mais feram a sensibilidade humana, estão os praticados por D. João II e D. Manuel. Crimes que excedem, em consciente perversidade, os da Inquisição, pois esta exterminava pelas fogueiras, em questão de horas, enquanto os daqueles provocavam dores atrozes por toda a vida.

Refiro-me à ordem decretada pelo primeiro, de que todas as crianças de dois a dez anos fossem retiradas, para sempre, dos braços dos pais e transportadas às ilhas açorianas. O que foi feito.

Não é sem razão que o professor Mâncio Costa – ilustre descendente de casal açoriano chegado a Santa Catarina em 1744 e de reconhecida ascendência judaica –, respondendo a uma indagação minha (“quais as famílias catarinenses portadoras de sangue judaico?”), respondeu-me: “Muito, muito mais fácil seria informar quais as que não descendem de judeus…”

E já que abordo, de passagem, a mescla de sangue judaico na formação étnica brasileira, só me cabe deplorar a ausência de amplo, paciente e consciencioso estudo histórico nesse sentido, sem que, nem de longe, essa observação indique desconhecimento do que já foi feito, e que só louvor merece.

É mais do que natural atribuir à soma das violências contra os judeus de Portugal o motivo da sua evasão do país. Além do Brasil, onde aportavam disfarçados como cristãos, grande foi a sua emigração para os Países Baixos, de cuja prosperidade foram causa principal, onde podiam , livremente, assumir sua condição de judeus.

O mesmo se verificava, por períodos variáveis, na Itália, Hungria, Boêmia, Alemanha, Áustria, Polônia e em certas regiões da Rússia e da França.


Não nos esqueçamos de que Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, um dia foi chamada de Porto dos Casais, em alusão aos casais açorianos que migraram para aquela localidade, hoje capital do Estado.

Judaísmo e Pós Modernidade

A modernidade teve o seu fim. Vive-se na pós modernidade: nome dado a esse complexo período situado no final desse século. Um período difícil de ser caracterizado devido a sua complexidade e por se manifestar no rastro da modernidade. A modernidade morreu, e nem mesmo foram concluídos os serviços funerários, já reina a pós modernidade.

A pós modernidade atesta a falência dos valores modernos: a crença na superioridade da razão sobre a emoção, da superioridade da máquina sobre o homem, o sentido de propriedade, o desejo de liberdade manifestado pela revolução democrática… tudo isso demonstrou sua fragilidade e sua farsa. O mundo não se tornou tão bom e feliz como se acreditava. As duas grandes guerras e a Shoá confirmaram definitivamente o fracasso dos ideais modernos. A qualidade de vida não correspondeu ao nível de evolução científica e tecnológica; os modelos políticos não trouxeram a prosperidade, a liberdade, a igualdade e a fraternidade apregoadas; os ideais de raça, de superioridade cultural e religiosa manifestaram-se com mais força do que nunca. O mundo dividiu-se entre ricos e miseráveis, acentuando a dependência e submissão. Todo o progresso científico e tecnológico não foi capaz de suprimir a miséria e as doenças. O mundo foi dividido em níveis: primeiro mundo… terceiro mundo…

No campo da ética, venceu o individualismo. Valorizou-se mais o que se pode ganhar do que se pode fazer para melhorar a vida de todos. Tal individualismo produziu uma solidão pavorosa no homem, levando-a a consumir cada vez mais, como uma forma de compensação das necessidades afetivas.

A religião, que, por muito tempo explicou aquilo que pertencia ao âmbito da natureza, na modernidade perdeu sua capacidade diante do conhecimento científico. Depois que o homem inventou o pára-raios, as palmas bentas, que os católicos queimavam (alguns ainda queimam) para espantar trovoadas, perderam o seu poder. Se as religiões apresentaram aos seus fiéis o modelo ético ideal, os homens não se sentiram muito convencidos disso: foi no mundo ocidental - cristão que aconteceram as duas grandes guerras, as perseguições, a intolerância religiosa e racial, a Shoá.

Ocorreu, neste século, fenômeno da secularização que repercutiu profundamente no campo religioso. Secularização consiste em reconhecer “a justa autonomia das realidades terrenas”, que têm suas leis próprias, seu valor próprio, independentemente da religião ( Concílio Vaticano II, GS 36). Assim, a religião retrocedeu como “instituição de poder”, embora não tenha sido eliminada como vivência pessoal. Surgiram as mais diversas expressões religiosas que, como num mercado, ofereceram conforto, consolo e promessas “mágicas” de melhores dias aos seus devotos: religiões sem deus (ou com deuses para todos os gostos e necessidades), sem ética, sem compromisso social, oportunistas. Eram religiões ou “filosofias” para todos os gostos, combinando com os valores individualistas da modernidade. Enfim, a vida religiosa, comprometida pelo individualismo, passou para o âmbito privado das interpretações e práticas pessoais.

A pós modernidade vem exatamente fazer a crítica da modernidade. Ela apresenta-se como a constatação do seu evidente fracasso. Contesta seus valores, e surge, no final do século, como um ajuste de contas com aquilo que significou o moderno. Talvez, embutido nesse movimento tão complexo, esteja a proposta para uma nova ética mundial. Todavia, muitas das suas características são preocupantes e não nos parecem tão positivas.

Os primeiros indícios deste novo tempo surgiram na França em 68, quando houve uma mudança na escala de valores. Foi também em 73 que o mundo experimentou as incertezas do progresso: a crise do petróleo. Assim, a tecnologia voltou seus esforços para superar os seus adversários. As comunicações passaram a desempenhar um papel importante de integração dos povos e das culturas, ao mesmo tempo, encarregou-se de comercializar tudo ( música, esportes…).

Com a pós modernidade a esperança no progresso entrou em crise. A política perdeu a ideologia, e mais do que nunca passou a ser “a arte do possível”. A crença de que com o conhecimento das lei da natureza tudo poderia ser realizado terminou na beira do precipício: a natureza foi destruída, tomou-se consciência dos perigos do seu aproveitamento desmedido. Pobres e ricos estão expostos aos mesmos males da contaminação atômica ou pela destruição da camada de ozônio.

O homem de hoje abandonou o pensamento racional. Quem manda é o sentimento. Ao mesmo tempo, ao se renegar a razão, o pensamento perde o seu fundamento. Terminam as certezas. Alcança-se a verdade sim, mas somente num contexto muito parcial e localizado. A razão só serve como instrumento da tecnocracia, para produção e consumo. Em outras palavras, o que é valorizado é a experiência. Ela venceu, neste final de século, os discursos da racionalidade.

O pensamento pós moderno pôs de lado os grandes relatos históricos. Todas as explicações que pretendem dar uma visão integrada e coerente dos diferentes aspectos da realidade são rejeitadas: nada de respostas últimas portadoras de sentido, nada de grandes projetos, nada de ideologias, pois todas fracassaram. O que vale são as “pequena histórias”. Não existe mais a “grande história” que oferecia um horizonte onde era possível situar os grandes acontecimentos que ofereciam coerência e que, bem ou mal, permitiam a antevisão do futuro. Entramos num novo modo de sentir e experimentar a vida, sem memória, sem continuidade histórica, sem futuro. A predileção pós moderna é pelo efêmero, pelo fragmentário, pelo descontínuo e caótico.

Também o homem deixou de ser protagonista dos acontecimentos históricos. Estes tornaram-se, na visão pós moderna, independentes do ser humano. Assim, o sujeito torna-se fragmentado e descentrado no seu ser íntimo, incapaz de unificar suas experiências e projetar-se no tempo.

Já não existem critérios morais válidos, com valor em si mesmos, de âmbito universal. Nada de valores absolutos. É ainda possível sim, haver acordo sobre algumas coisa, mas estes não passam de fracos consensos sociais, sem compromisso definitivo nem universais: existem sim, compromissos transitórios e locais.

A ética foi substituída pela estética: vale o belo. As opções passaram a ser privadas, orientadas pela vontade, sem coação, sem coerência. “Se ontem era a meditação transcendental e a ioga, hoje é o álcool e a droga, amanhã a aeróbica e a reencarnação…”. Tudo é valido, tudo é experiência… viver é experimentar sensações…quanto mais fortes, melhor. Nada de sentimentos de culpa, nada de bem e nada de mal, nada de valores… assim é na pós modernidade.

O modelo de vida pós moderno é aquele apresentado pelas novelas, pelos comerciais de tevê ( do Free, é um belo exemplo): busca-se um “ estilo e vida”, busca-se pequenos instantes de prazer, vive-se no vazio.

A pós modernidade pôs em crise a pertença às realidades que transcendem a própria esfera pessoal. Deu origem ao jovem light, superficial, imediatista, cheio de coisas, mas vazio de ideais, incapaz e assumir compromissos, que não atinge a realidade, saturado de perguntas, de informações justapostas…mas incapaz de chegar à unidade.

No âmbito religioso, proliferam os movimentos ligados ao esoterismo, às “ filosofias”, que nada exigem do homem. Por outro lado, as grandes religiões perdem adeptos. Ela, por oferecerem sentido único e totalizante, se situam no horizonte dos “grandes relatos” negados pelo pensamento pós moderno. Combina mais para o atual momento as religiões descompromissadas, sem ética, que apresentam um deus manipulável que se confunde com “forças e energias cósmicas” – que vibram e giram no vazio da pós modernidade.

Curiosamente, ao lado dos movimentos esotéricos, ocorre a busca aos movimentos mais ortodoxos e fechados das religiões tradicionais. O que, ao contrário de significar o desejo de uma vida religiosa mais integra e integrada à realidade, expressa individualismo e, de certa forma, um “sectarismo”, um apartar-se da unidade.

Bem, aqui estão alguma características dessa complexa pós modernidade. Para uns ela apenas é uma moda a mais. Para outros é a imposição de uma nova cultura sobre o projeto fracassado da modernidade; para outros, ela é o caminho para a concretização de um período inacabado, isto é, a pós modernidade é a própria modernidade em rumo ao seu destino. Seja o que for, a pós modernidade, é a crítica da modernidade.

É dentro deste contexto que faço minhas reflexões sobre o futuro das as religiões monoteístas. Elas estão situadas no horizonte dos “grandes relatos”, exatamente aqueles que são rejeitados nestes final de século. Elas foram “ reestruturadas” na modernidade, portanto, refletem valores espirituais e éticos desse período, valores que hoje passam, juntamente com outros tantos, pela crítica pós moderna. Não há privilégios. Todas as três religiões monoteístas estão mergulhadas no mar da pós modernidade, portanto, merecem e necessitam fazer uma reflexão profunda no seu interior e da sua missão no mundo.
Entre elas, acredito, pelas suas características, que o judaísmo seja aquela que está, de certa forma, mais adequada este tempo. Embora não esteja imune aos efeitos deste período tão complexo da nossa história. Assim, também o judaísmo será submetido à revisão interna dos seus conceitos e posturas diante do advento do novo século.

Talvez, seja a falta de um consenso comum a questão mais importante a ser enfocada, dentro do judaísmo, neste final de século. Pois, se na modernidade se evidenciou a falta de um consenso sobre “o que é ser judeu e o que é judaísmo”, muito mais diluído tenderá ser esse consenso nos próximos anos, já que uma das características pós modernas é a dissolução dos consensos universais.

Dizem que onde há dois judeus há três opiniões; ou três sinagogas… piada? É, mas reflete uma realidade. Desde o início da modernidade européia os judeus não têm um consenso sobre no que se constitui o judaísmo em sua totalidade. Há consensos definidos, claros entre os diferentes grupos, mas esses não representam a globalidade judaica. Basta que sejam confrontados para se confirmar tal falta de unanimidade. Diante disso, poderíamos perguntar: teria o judaísmo, nesses três últimos séculos, perdido a sua essência? Teria o judaísmo rompido a sua unidade? Se a perdeu, como se sairá desse período crítico? Quais valores dariam ao judaísmo unidade, brilho, força interior, sem perder a consciência de estar sujeito ao mundo, aos os seus câmbios, e a consciência da sua presença e compromisso com o destino da humanidade? ( essas questões poderiam ser levantadas em relação a também ao cristianismo ).

O judaísmo, apesar de suas divisões internas ainda tem vigor suficiente para fazer brilhar sua essência nessa confusa época, embora necessite, também, como o cristianismo, passar por um profundo exame das suas opções fundamentais no que diz respeito ao homem, ao estado, à religião. E esta é uma tarefa que inclui todas as grandes correntes do judaísmo: ortodoxa, conservadora e reformista. Além desses aspectos, o tema “assimilação” deve ser incluído no rol de exames, pois é importante no que diz respeito à relação judeus e não-judeus, entre cultura judaica e cultura global.

O judaísmo há muito aceita – e não poderia deixar de fazê-lo – certos valores que são próprios do nosso tempo, visto expressiva participação de judeus, completamente integrados, na vida das diferentes sociedades em que vivem. Hoje isto nos parece tão óbvio, pelo menos no ocidente, mas não podemos esquecer que em plena modernidade, muitas comunidades ainda estavam privadas de uma participação normal na vida de muitos países. De qualquer forma, a adaptação judaica ao mundo moderno em muitas ocasiões surpreendeu: anteciparam-se na limitação de filhos na católica Polônia do final do século XIX; preocuparam-se, ainda no século passado, com a formação acadêmica das mulheres, enquanto, ainda hoje, muitas sociedades rastejam neste sentido.

Se o tradicionalismo religioso e a rejeição “ao mundo” não são recomendáveis pelo risco que oferecem à credibilidade das religiões e das suas lideranças, igualmente a adaptação e a integração ao mundo secularizado comprometem a forma tradicional da vida judaica ou da vida cristã. Nivelar ou suprimir particularidades, tradições, com certeza, leva à descaracterização dos diferentes grupos étnicos e ou religiosos, sejam eles quais forem. Por exemplo: a germanização - quando muitos judeus acreditaram estar bem integrados à vida da sociedade alemã, o estado nazista os despojou de sua nacionalidade. Da mesma forma, não seria boa a americanização: a total e descriteriosa aceitação dos padrões americanos de vida, e o fácil abandono de muitos costumes e sinais característicos dos judeus. Tal como a germanização, a americanização não oferece um futuro promissor ao judaísmo. Se muitos desses judeus adotaram a Shoá e ou o Estado de Israel como sinais de identidade - sinais que os identificam e garantem certa unidade na fascinante cultura da América - apesar da importância que eles possuem - não sei até quando seriam suficientemente fortes para dar as gerações futuras uma identidade israelita. Não sei também, se estes sinais poderiam substituir a substância da fé judaica.

As religiões tradicionais, de modo especial o judaísmo, não são apenas um conjunto de normas e práticas a serem seguidas por razões de fé. São muito mais do que isso: elas imprimem um caráter, um modo de ser, de pensar, de julgar a partir de valores próprios de cada crença que ultrapassam o âmbito da fé pura e simples. Portanto, preservar o que é fundamental em cada religião é preservar aquilo que essencial a cada indivíduo e a cada grupo. O mundo pós moderno, muitas das vezes, por sua crítica que faz às tradições religiosas, leva o indivíduo a ultrapassar fronteiras, a perder o que é parte do consenso básico necessário para a coesão de todos – e no caso dos judeus – poderia fazê-los esquecer do consenso que, embora nem sempre tão claro, garantiu a sua continuidade por todos esses séculos. Muitos afirmam que pelo fiel apego às práticas religiosas se manteria unidade judaica em qualquer país e cultura que estejam submetidos. Mas, também se constata que a Halachá, seguida ao pé da letra, como sugerem alguns, já não pode oferecer um consenso básico satisfatório a todos os judeus.

Alguns respeitados pensadores opinaram em relação ao consenso que possa representar a unidade de todos os judeus. Para o judeu americano Ben Halpern, não é mais o sentimento em torno da fé que une os judeus, mas sim um sentimento de destino comum: uma preocupação de um para com o outro. Assim, para o pensador, o judaísmo já não é expressão de uma religiosidade comum, pela qual todos são reconhecidos como membros de um povo escolhido e depositário da providência divina; mas antes, um povo que reparte experiências diversas e comuns. Porém, pode-se perguntar: como pode um povo, que estabelecido por séculos em diversos países, com diferentes culturas e preocupações próprias, reconhecer-se por “um destino comum”? Onde se situa este forte sentimento capaz oferecer de unidade entre judeus do ocidente e do extremo oriente?

Já um outro pensador, Jacob Neusner, se opõe em parte a Halpern. Para ele existe uma solidariedade judaica universal fundada numa “estrutura mítica fundamental”, que permanece intacta ao longo dos séculos. Pois, importantes aspectos da tradição que são conservados e transmitidos gerações após gerações que, mesmo entre os judeus mais secularizados, são enfocados dentro do clássico modelo judaico. Por exemplo: a Shoá, a fundação do Estado de Israel, são entendidas na linguagem dos Profetas: morte e ressurreição, retorno a Sion e interpretados através da ótica: Criação, Revelação e Redenção.

O pensador fala em “estrutura mítica” relacionada aos acontecimentos bíblicos e da história judaica que, preservados na memória, oferecem identidade e certo grau de unidade aos judeus. Há um mito judeu? Bem, a ciência religiosa entende que o mito não é real, mas é verdadeiro à medida que ganha sentido na experiência histórica do povo, e que permite interpretá-la ( tal experiência) de forma coerente. Assim, o mito se mantém de geração em geração. Ora, segundo Neusner, isso poderia puro sentimentalismo. Então, até que ponto este mito é verdadeiro e significativo dentro da vida judaica? Ou, isso seria apenas puro sentimentalismo?

Não temos dúvidas de que a piedade arcaica não é a única piedade verdadeira; também não temos dúvidas de que modernidade não exclui a verdadeira religiosidade. Há pessoas modernas que reconhecem o abismo que há entre o arcaico e o moderno, e nem por isso duvidam de sua autenticidade e do valor que elas têm na sua vida religiosa. Portanto, no judaísmo, apesar da falta de um consenso geral sobre em que consiste ser judeu, apesar das formas mais ortodoxas de interpretação, e apesar do reconhecimento do abismo que há entre o arcaico e o moderno, há um potencial religioso capaz de enfrentar a crítica da pós modernidade sem perder o seu vigor. Contudo, mesmo assim, de nenhum modo poder-se-á renunciar determinadas constantes clássicas da fé se se quer seguir sendo religiosidade judaica.

Não se pode renunciar àquilo que foi e é central no ensinamento bíblico e que, apesar dos questionamentos da modernidade e da “negação”, por parte de certos conceitos fundamentais para o judaísmo, tais ensinamentos se mantêm como verdades de fé: a noção de Deus único, Povo escolhido e Terra prometida. Estas verdades fundamentam a Aliança e, por conseguinte, conduzem à observância das mitzvot: é na relação com o Deus Único que está, desde do princípio, a originalidade, a continuidade e a identidade do povo judeu, apesar das diferentes línguas, culturas e países em que habitam.

A partir dessa noção que dá originalidade, continuidade e identidade ao povo judeu poder-se-ia traçar um caminho à pós modernidade. Mais do que a assimilação, tais verdades fundamentais possibilitariam um maior brilho da essência judaica. Se durante a modernidade costuma-se dizer “ Se você esquecer que é judeu, os outros lembrarão o que você é”, talvez o seja melhor, daqui para frente, dizer: “ Se você não esquecer que é judeu, poderá também recordar aos outros”. Uma lembrança que produzirá efeito interno, na comunidade, e externo, como testemunho no mundo carente de valores culturais e religiosos definidos.

A identidade judaica - na a pós modernidade - só será possível na medida em que volte aflorar na consciência coletiva essas constantes irrenunciáveis, mesmo e apesar de diferentes variáveis, pois seria uma ilusão esperar uma uniformidade.

A modernidade tratou de estabelecer um modelo unitário de liberdade, igualdade e fraternidade em nome de uma razão universal, da natureza humana comum, o que resultou num pluralismo arbitrário, que punha em risco as três religiões monoteístas. Neste pluralismo arbitrário não há lugar para uma verdade universalmente válida, não há um comportamento ético de obrigatoriedade geral, nenhum direito humano que se tenha que respeitar todas as partes; portanto, tal pluralismo deve ser rejeitado – através da conscientização das constantes religiosas permanentes de cada credo.

No horizonte pós moderno não há de se impor novamente um modelo unitário aos moldes da modernidade. Neste horizonte se apresenta um pluralismo social e religioso com duplo sentido: externo - no que se refere ao novo horizonte mundial pós moderno, policêntrico, transcultural e multireligioso; interno - no que se refere a nova pluralidade (que a partir da modernidade ocorre também no judaísmo) de direção, escolas e partidos.

O judaísmo poderia se apresentar nesse horizonte pós moderno da seguinte forma: externo - mantendo os elementos fundamentais que caracterizam a realidade judaica, Deus Único, Povo e Terra, repensados como elementos centrais da fé israelita, porém, abrindo-se ao horizonte universal. Por exemplo: Deus é criador dos céus e da terra, e portanto, é criador de todos os homens, de todas as raças e nações; o primeiro homem, Adão, não é o primeiro judeu, senão o primeiro ser humano; a primeira aliança feita com Noé foi uma aliança universal; também, a aliança com Abraão e com os Patriarcas não significava, de modo algum, princípio de conflito com outros povos, uma vez que, por Abraão, seriam benditos todos os povos da terra… — interno: significa buscar um caminho caracterizado pelo reconhecimento das diversas tendências dentro do próprio judaísmo: por um lado, valorizar a tradição sem, porém, pender ao fundamentalismo; por outro, abrir-se às influências do mundo, sem escorregar para o “liberalismo” vazio; portanto, buscar o meio termo, sem cair na mediocridade - comprometendo-se apaixonadamente com formação judaica, com a guarda das tradições, com a preservação da memória, reconhecendo o significado e a força do sionismo e do Estado de Israel com respeito e compromisso, sem, porém, perder de vista o mundo.

Este, talvez, seria o caminho do judaísmo para o mundo pós moderno: jamais perder de vistas as constantes fundamentais da fé judaica - a Aliança - que envolve a tríplice relação: Deus, Povo e Terra. Isto não se trata de uma fé reduzida, individualista e nacionalista, porém, de uma fé vivida em comunidade - uma comunidade que se corresponda com o mundo, como parte dele e que, se comprometa fielmente com o destino da Humanidade.

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