VAYECHI

29.12.2001 / 14 de Tevet de 5762.

Parashah – VEYECHI – Gn.47:28 – 50:26
Haftarah – I Rs.2:1-12.

Comentário:

Jacó contempla o futuro abençoando a seus descendentes e profetizando: Embora Jacó, junto com sua família, desfrutasse do melhor do Egito, nunca perdeu a visão do futuro. À semelhança de Abraão e Itzak, Jacó considerava sua vida terrenal como uma peregrinação (47:9), pois “esperava a cidade . . . da qual o artífice e construtor é D-us“. Tampouco se esqueceu das promessas da aliança de que Israel seria uma nação e herdaria a terra de Canaã (48:3,4). A confiança, tanto de José como de Jacó, de que os israelitas voltariam à terra prometida se observa nas instruções que deram quanto à sua sepultura. Jacó ordenou a seus filhos que o sepultassem no cemitério de Macpela, onde se encontravam os restos de seus pais, avós e também de Léa, sua esposa. José pediu-lhes também, que levassem seus ossos para Canaã porque “D-us certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão, Itzak e a Jacó“ (50:42).

Ao abençoar Jacó, seus filhos, foram constituídos pais das tribos de Israel, Jacó profetizou com assombroso discernimento as características das doze tribos. Rúben, por seu caráter impetuoso e instável, não cumpriu seu alto desígnio, e por sua impureza moral fez-se indigno da proeminência. Sua tribo caracterizou-se pela indecisão na época de Débora (Jz.5:15,16), e mais tarde parece ter sido eclipsada por Gade. Por outro lado, de tempos em tempos foi devastada por Moabe.

Os violentos filhos de Simeão e de Levi foram amaldiçoados por seu aleivoso ataque contra Siquém quando vingaram sua violada irmã Dinah (Gn.34). Em pouco tempo ficariam dispersos entre as demais tribos de Israel. Simeão, no meio de Judah (Js.19:1), foi absorvida principalmente por esta tribo, por outro lado, a dispersão de Levi converteu-se em grande bênção, dado que esta tribo foi honrada com a função sacerdotal e a espada da violência foi substituída pelo cutelo do sacrifício. A mais importante bênção e a profecia mais transcendente do presente capítulo é a que se refere à tribo de Judah (49:8-12). O erudito Derek Kidner observa que esta profecia apresenta em miniatura o esquema bíblico da história. Compara-se Judah ao leão por sua valentia, força irresistível e supremacia sobre as outras tribos. Historicamente, Judah foi posta à cabeça do acampamento israelita na peregrinação pelo deserto (Nm.2:2-9; 10:14); foi divinamente designada para ser a primeira em retomar a guerra contra os cananeus após a morte de Josué (Jz.1:1,2); seu exército no período de Davi representava mais de um terço da totalidade dos soldados israelitas (II Sm.24:9). “O Cetro (insígnia real ou de comando) não se arredará de Judah.” A Judah foi concedida a grande honra de ser o progenitor da dinastia real, a casa de Davi.

Pela fé Jacó olhou para o futuro longínquo e contemplou a vinda do Messias. Judah exerceria a autoridade real sobre as outras tribos “até que venha Shiloh”. Não é claro o significado da palavra “Shiloh” no idioma hebraico, porém muitos estudiosos da Bíblia a interpretam de uma ou outra maneira por “pacificador” ou “aquele a quem pertence o direito real” não outro que o Messias. A última interpretação indicaria que o Cetro ou símbolo de autoridade real estaria em mãos de sucessivos reis de Judah até que viesse o Rei a quem D-us reservava o direito de reinar e a quem as nações renderiam homenagem (49:10). Ezequiel (21:26, 27) parece confirmar que Gênesis 49:10 deve ser considerada claramente uma passagem messiânica. Esta profecia antecipou o grande fato histórico de que a linhagem de Davi chegaria a ser eterna no Messias, “o Leão de Judah e Príncipe da Paz”.

Alguns comentaristas julgam que Gênesis 49:11,12 se refere à abundância de vinha no território de Judah, porém outros crêem que o texto fala em sentido figurado da exuberante abundância do reino universal do Messias, cujo advento é profetizado no versículo anterior.

É interessante notar como Jacó empregava outros símbolos de animais para caracterizar certas tribos. Issacar é comparado a um jumento forte que não perdeu seu vigor. À semelhança de muita gente, a tribo de Issacar estava disposta a ceder sua liberdade a fim de obter segurança econômica e uma vida sem riscos nem responsabilidade. Em vez de lutar por submeter os cananeus, aceitou ser submetida por eles. A comparação de Dan a uma serpente venenosa, que ataca sem aviso, talvez se refira profeticamente à tomada de Laís de surpresa por essa tribo (Jz.18:7-9). Naftali seria como uma cerva solta; efetivamente foi localizada em território fértil e tranqüilo. Nos capítulos 19 e 20 de Juízes nota-se algo da violência de um lobo na conduta dos benjamitas. Assim Jacó previu com exatidão algo do caráter e destino das tribos hebraicas. As bênçãos sobre seus filhos constituíram uma conclusão apropriada do período patriarcal.

Lições da vida de José: O livro de Gênesis termina com as palavras “num caixão no Egito”. José deixou o mundo dando testemunho de sua fé na promessa de que Israel voltaria a Canaã, pois ordenou que seu corpo fosse embalsamado a fim de ser levado para Canaã. Para os israelitas que estavam no Egito, o caixão era um símbolo de esperança.

- Podemos aprender muito estudando a história de José. Eis algumas lições que podemos extrair:

- Pureza pessoal. Se não fosse a vida religiosa de José e sua convicção quanto à importância da pureza, teria sido arrastado por paixões carnais e teria cedido à tentação. Mas resolvera levar uma vida pura e se conservou imaculado.

- A prosperidade nos negócios é possível para o fiel servo de D-us. D-us fez José prosperar e ele é um exemplo para nós.

- A importância de cuidar de nossos pais.

- Por meio da humildade, obter a coroa. José sofreu como escravo e depois como preso durante os anos de sua juventude. Foi perseguido pelos irmãos, caluniado pela mulher de Potifar e esquecido pelo copeiro. Tudo sofreu com paciência. Mas seus sofrimentos foram meios que o levaram a alcançar a coroa de autoridade no Egito.

- Toda a vida de José é um exemplo da providência divina. D-us guiou todos os passos de José encaminhado a maldade dos homens e os contratempos da vida para sua meta divina.

Shabat Shalom !

VAYIGASH

22.12.2001 / 7 de Tevet de 5762.

Parashah – VAYIGASH – Gn.44:18 – 47:27.
Haftarah – Ez.37:15- 28.

Comentário:

A humilde súplica de Judah – A intercessão comovente de Judah, saturada de compaixão e amor para com seu irmão e pai, convenceu a José de que seu arrependimento era verdadeiro e não podia fazer outra coisa senão revelar-se a eles. Perdoou-lhes, e até mesmo os consolou dizendo-lhes que havia sido a mão de D-us que o enviara ao Egito e não eles. Disse: “Pelo que D-us me enviou diante de vossa face, para conservar a vossa sucessão na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento” (45:7).

José não somente perdoou a seus irmãos, mas proveu amplamente para satisfazer-lhes as necessidades. Mandou que trouxessem suas famílias e Jacó para o Egito onde habitariam na melhor região daquele país. D-us operou no coração de Faraó a fim de que concedesse gratuitamente a Jacó e a sua família, parte do Egito denominada Gósen. Assim demonstrou sua gratidão a José por haver salvado o Egito da fome. Gósen era a região nordeste do delta ao Nilo, separada geograficamente do restante do Egito, mas a vinte quilômetros da sede central de José, Tânis.era um lugar rico e ideal para que os israelitas levassem uma vida separada dos egípcios. Podiam ali viver juntos, multiplicar-se, conservar seus costumes e falar seu próprio idioma. Também seu trabalho como pastores ficava protegido da influência egípcia, pois os egípcios menosprezavam aos pastores (46:34). Muito tempo antes, D-us havia revelado que seu povo viveria em terra estanha (15:13-16). Agora estava por cumprir-se. José foi o instrumento escolhido para transferir os israelitas para o Egito.

Jacó e sua família descem ao Egito: Gn.46:1-47:27. A partir daqui até ao capitulo 49 Jacó é a pessoa que mais se sobressai e se nota que já era um patriarca digno do novo nome que lhe fora dado em Peniel, Israel (Gn.32:30). Havia passado pela escola do sofrimento, incluindo sua fuga de Esaú, suas dificuldades com Labão, a morte de sua amada Raquel, a humilhação de Dinah e os muitos anos de solidão, durante os quais guardou luto por José. Quase não podia crer na notícia de que José não havia morrido e que era o governado do Egito. Ao ver os carros enviados por Faraó, o patriarca adquiriu ânimo. D-us confirmou-lhe a visão na qual lhe havia indicado ir para o Egito. Por isso não foi para a terra dos Faraós como um refugiado, mas como chefe de uma família que, seguindo a promessa de D-us, converter-se-ia em uma nação. A cena do reencontro do velho pai com seu nobre filho é comovente, para Jacó era como receber um morto ressuscitado. Para José, significava o ponto culminante da aprovação de D-us por sua fé e paciência.

A seguir José apresentou uma delegação de cinco de seus irmãos perante Faraó. Embora este houvesse convidado toda a família a vir para o Egito, José queria estar seguro de que não seria uma decisão passageira de Faraó. Era conveniente que os egípcios soubessem também que Faraó estava perfeitamente de acordo com que se radicassem no Egito.

A forma pela qual José apresentou seu velho pai a Faraó demonstra o profundo respeito que sentia por Jacó e que desejava expressar-lhe a honra mais assinalada. Apresentou ao rei do Egito como se apresentasse um monarca. O rústico e velho pastor demonstrou sua fé e dignidade nessa ocasião. Não se prostrou ante o grande potentado cercado do esplendor da corte egípcia, mas invocou a bênção do eterno sobre ele. Suas palavras a Faraó, “poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida”, contrastam marcadamente com suas palavras proferidas no final de sua carreira: “o D-us que me sustentou desde que eu nasci até este dia; o Anjo que me livrou de todo o mal . . .” (47:9; 48:15, 16). Entre as duas ocasiões, Jacó viu a mão de D-us a operar mediante as circunstâncias e conseqüentemente a auto-avaliação de sua vida mudou de forma radical.

Shabat Shalom !

Mikétz

14.12.2001 / 30 de Kislev de 5762.

Parashah – MIKÉTZ – Gn.41:1– 44:17.
Haftarah – I Rs.3:15- 28.

Comentário do texto supra:

José chega ao posto de primeiro-ministro: Gn.41. Ao contar trinta anos de idade e depois de treze anos de disciplina e preparação (37:2 e 41:46), D-us permitiu que José chegasse ao lugar onde podia honrá-lo. O Eterno deu a Faraó sonhos tais que nem os magos, nem os sábios versados na antiqüíssima sabedoria egípcia podiam interpretar. Então o principal copeiro lembrou-se de que José havia interpretado seu sonho na prisão. Faraó mandou chamara a José. É de notar que José se negou a atribuir-se mérito algum na interpretação de sonhos; pelo contrário, testificou abertamente acerca de D-us perante Faraó. Apesar de José não ter visto ainda o cumprimento de seus próprios sonhos e de haver passado longos e difíceis anos como escravo e preso, não havia perdido sua confiança em D-us. Interpretou o sonho de Faraó como uma predição de sete anos de boas colheitas seguidos de sete anos de fome. Aconselhou também que se escolhesse uma pessoa prudente para fazer os preparativos necessários a enfrentar a fome, mas não sugeriu que fosse ele o escolhido; provavelmente não suspeitava que o designado seria ele.

De imediato Faraó nomeou a José como vizir ou primeiro-ministro do Egito. Apoiava-o com a plena autoridade real colocando em seu dedo seu próprio anel de selo como o qual todos os decretos e documentos oficiais eram legalizados e entravam em vigor. Ordenou que todos se ajoelhassem diante de José como se se tratasse do próprio Faraó. Para que José tivesse posição social, Faraó concedeu-lhe um nome egípcio e lhe deu por esposa a filha do sacerdote de On (Heliópolis), o centro do culto ao Sol, cujo sacerdócio tinha grande importância política. Foi assim que José se aparentou com a mais alta nobreza do Egito.

José não se envaideceu de sua posição nem se aproveitou pessoalmente de sua autoridade; antes, reconheceu que foi levado para desempenhar um trabalho em beneficio de outros, trabalho que ele empreendeu imediatamente. Pensava mais em sua responsabilidade do que em sua dignidade. Primeiro percorreu toda a terra do Egito para inspecionar seus recursos e organizar o trabalho. Depois cumpriram de maneira sistemática as instruções prudentes que D-us lhe havia dado.

Os nomes que José deu a seus filhos indicavam que D-us lhe havia mostrado seu favor. O nome Manassés (o que faz esquecer) demonstra que José havia vencido a amargura. Era um testemunho de que D-us o havia feito esquecer-se de todo o trabalho dos longos anos de provação e de saudade de seu lar em Canaã. Foi, talvez, a maior vitória de sua vida. Depois chamou a seu segundo filho “Efráim” (fértil). D-us faz que frutifiquem os que sabem perdoar e esquecer. Anos mais tarde Jacó declarou que José era como um ramo frutífero junto a uma fonte (49:22). José podia frutificar porque tinha suas raízes em D-us, mantendo-se mediante a comunhão com Ele.

Os críticos liberais têm duvidado do fato que Faraó elevasse ao posto de primeiro-ministro do Egito um escravo estrangeiro, sob condenação e sem prestígio algum. Mas o relato deixa claro que Faraó e seus servos ficaram impressionados pelo fato de que o Espírito de D-us residia em José, de modo que a sabedoria do jovem hebreu não era humana mas uma operação sobrenatural de D-us (41:38). Supõe-seque a ascensão de José foi facilitada porque também nesse período ocupava o trono do Egito uma dinastia de reis asiáticos, os hicsos ou reis-pastores. Os hicsos invasores tomaram o trono do Egito em 1720 aEC. e reinaram aproximadamente 140 anos. Eram semitas e às vezes nomeavam semitas para ocupara postos importantes. Seria natural que um rei dos conquistadores do Egito acolhesse os hebreus e os colocasse no melhor da terra. Não há o que estranhar que não se encontre menção alguma de José nos monumentos existentes no Egito, pois os egípcios odiavam aos hicsos. Ao expulsa-los do Egito, os egípcios procuraram erradicar toda marca de ocupação estrangeira de seu pais, a tal ponto que os arqueólogos tem tido dificuldade para reconstruir os detalhes dos hicsos. Contudo, a arqueologia confirma que muitos pormenores mencionados no relato acerca de José concordam com os costumes daquele tempo. Por exemplo, encontram-se os titulo de chefe dos copeiros e chefe dos padeiros (40:2) em escritos egípcios. Outro dado confirmado é que se conheceram tempos de fome no Egito. Um faraó, segundo um escrito da época ptolomaica (2700 aEC) disse: “estou desolado porque o rio Nilo não transborda em um período de sete anos, falta grão, os campos estão secos e o alimento escasseia.” Desde a antiguidade era o Egito celeiro de Canaã em tempo de escassez. Na Pedra Roseta há um escrito que indica que Faraó tinha o costume de por em liberdade alguns presos no dia de seu aniversário. Tal como o fez no caso do copeiro-mor (40:20). Outro dado é fornecido pelas figuras egípcias nos monumentos antigos porque indicam que os homens não usavam barba e assim explicam a razão pela qual José se barbeou antes de comparecer perante o Faraó (41:14).A cena da investidura de José é nitidamente egípcia. Faraó deu a José seu anel de selo, fê-lo vestir-se com roupa de linho finíssimo e pôs um colar de ouro em seu pescoço (41:42), as três coisas mencionadas nas inscrições egípcias que descrevem investiduras. Além disso, os nomes Tzafnate-Paneach, Asenat e Poti Fera, são nomes egípcios.

José põe seus irmãos à prova: Gn.42. Ao ver os dez homens da família de Jacó que chegaram ao Egito para comprar alimento, José reconheceu de imediato seus irmãos, porem eles não o reconheceram. Por fim cumpriram-se os sonhos de José. Por que os tratou com severidade? Queria prova-los para ver se estava arrependidos do crime cometido havia mais de vinte anos. Havia transferido sua inveja para Benjamim? José sabia que uma reunião sem comunhão constituiria um escárnio. Se ainda guardavam inveja e ressentimento não poderia ele desfrutar de sua companhia, nem eles da companhia de José. Por outro lado, há certos aspectos do trato de José com seus irmãos que demonstram que ele estava animado de profunda solicitude por isso. Também os nomes que deu a seus filhos atestam que não guardava ira nem desejo de vingança em seu coração.

Os três primeiros dias na prisão fizera os irmãos compreenderem a sorte a que havia m exposto José (42:21.22). o fato de que José mandou prender a Simeão em vez de Rúben, oi primogênito, que se opusera a maltratar José havia vinte anos, infundiu neles a sensação de que a justiça divina os estava alcançando. Seu temor aumentou quando encontraram o dinheiro nas bolsas. Agora chegaram à conclusão de que D-us estava acertando contas com eles. A oferta de Rúben de entregar à morte seus dois filhos em troca, pareceria indicar uma mudança de coração, mas em realidade carecia de profundidade, pois Rúben sabia que Jacó não daria morte a seus netos. Não obstante, mostrando uma mudança de atitude, os dez irmãos não se ressentiram com a preferência que José revelava em relação a Benjamim. A mudança de coração evidenciou-se, sem dúvida alguma, quando se encontrou o copo de prata no saco de Benjamim. Todos os irmãos se ofereceram como escravos e se negaram a partir quando José exigiu de novo que somente Benjamim ficasse como escravo. Demonstraram que estavam mais preocupados por Benjamim do que por si mesmos.

Como podemos notar, a história de José é simplesmente impar, que possamos tirar alto proveito do exemplo de vida.

Shabat Shalom!

VAYESHEV

08.12.2001 / 23 de Kislev de 5762.

Parashah – VAYESHEV – Gn.37:1; 40:23.
Haftarah – Am.2:6; 3:8

Comentário:

Introdução à História de José: José é um dos mais atraentes personagens da Bíblia. O teólogo Ross observa que era um “idealista prático”, que no início de sua vida teve sonhos que o animaram e guiaram pelo resto de sua vida. Ele manifestou, talvez, o caráter mais correto de todas as pessoas descritas no Tanach. Nota-se a importância de José no fato de que a ele é dedicado quase tanto espaço no Livro de Gênesis quanto a Abraão. José é importante porque foi o elo entre a vida nômade dos hebreus em Canaã e sua vida sedentária no Egito.

D-us havia revelado a Abraão que sua descendência passaria quatro séculos em terra alheia (Gn.15:13-16). A paciência de D-us esperaria até que a maldade do amorreu chegasse ao ponto máximo antes de destruí-lo e entregar Canaã aos hebreus. É evidente também a necessidade de que Israel fosse para o Egito. A aliança matrimonial de Judah com uma cananéia e sua conduta vergonhosa descrita no capítulo 38 indica-nos o perigo que havia em Canaã de que os hebreus se corrompessem por completo e perdessem seu caráter essencial. No Egito os hebreus não seriam tentados a casar-se com mulheres egípcias nem a se misturar com os egípcios, pois estes desprezavam os povos pastores (Gn.46:34). Além do mais, tão logo os cananeus reconhecessem os planos dos israelitas de estabelecerem-se permanentemente em Canaã e assenhorear-se da terra, tê-los-iam exterminados. Tal coisa não sucederia em Gósen. Ali, sob a proteção do poderoso Egito, os hebreus poderiam multiplicar-se e desenvolver-se até chegar a ser uma nação numerosa.

D-us usou a José como instrumento para levar a cabo o plano de transferir seu povo para o Egito. Em toda a vida de José destaca-se a providência divina. A palavra providência deriva do latim – providere: videre significa “ver” e pro “antes”. De modo que quer dizer “ver com antecedência” ou “prever”. D-us prevê, e com isso também prepara os passos necessários para realizar tudo o que Ele prevê. O dicionário de Aulete define providência como “A suprema sabedoria atribuída a D-us com que ele governa todas as coisas”, e mais adiante: “O próprio D-us, considerado como supremo árbitro do universo”. O dicionário de Aurélio diz: “A suprema sabedoria com que D-us conduz todas as coisas”. E por extensão: “O próprio D-us.” Em nenhum outro relato da Bíblia brilha mais a providência de D-us do que nesta história. Ele lança mão dos desígnios distorcidos dos homens e os converte em meios para efetuar seus planos (Gn.50:20).

A venda de José por seus irmãos: Gn.37. O primeiro passo para situar José no Egito foi ser ele vendido como escravo por seus irmãos invejosos. Seus irmãos odiavam-no por vários motivos:

a . José comunicou a seu pai o mal que se propalava a respeito de seus irmãos. Aos dezessete anos foi enviado a seus para aprender a pastorear ovelhas. A irreverência e a baixa moralidade deles escandalizaram-no. Os filhos mais velhos de Jacó haviam cedido a certas práticas pagãs, fato que se vê na conduta de Judah relatada no capítulo 38. Parece que entre os filhos de Jacó somente José manteve em alta conta as elevadas normas da religião do Eterno. Se José tivesse participado das conversações imundas e da conduta vulgar, eles o teriam aceitado como um deles.

b . Jacó amava-o mais do que a seus outros filhos. Pois José nasceu na velhice de Jacó e era o primogênito de sua esposa predileta, Raquel. Expressou abertamente seu favoritismo presenteando a José com uma túnica de cores que lhe chegava até aos calcanhares e mangas que iam até às palmas das mãos. Este tipo de vestimenta era usado pelos governantes, sacerdotes e outras pessoas de distinção que não tinham de trabalhar manualmente. A túnica dos operários e pastores não tinha mangas e mal chegava até ao joelho. Os irmãos teriam perguntado entre si: “ Não se dará o caso de que nosso pai entregue a primogenitura a José, fazendo-o nosso chefe no culto e na guerra?” Jacó provocou, pois, a inveja de seus filhos mais velhos.

c . Ingenuamente José contou os sonhos que profetizavam que o restante de sua família se inclinaria diante dele da mesma forma que as pessoas prestavam homenagem aos reis naquele tempo. Em geral, não convém contar tais revelações até que se veja de que forma D-us as executará ou até que D-us mostre que devem ser contadas. Qual foi o propósito de D-us ao dar-lhe esses sonhos? Os sonhos deram a José a convicção de que D-us tinha algum alto propósito para a sua vida e mais tarde esses sonhos o sustentariam em seus longos anos de prova.

Ao enviar José a fim de obter informação acerca do bem-estar de seus irmãos, Jacó deu a estes a oportunidade que esperavam. Percebe-se porém, que a mão de D-us o guiava mesmo no meio das más paixões de seus irmãos. Haviam-se transferido de Siquém até Dotã, situada dezoito quilômetros ao norte. Dotã é uma palavra que significa “poços gêmeos” e existe até hoje em Dotã excelente abastecimento de água. A importância da transferência deles reside em que Dotã estava na rota das caravanas que se dirigiam ao Egito. Rúben se interpôs com a intenção de salvar a José dos planos assassinos de seus irmãos. Como filho mais velho era responsável pela vida de José e parece haver tido maior consideração por seu pai do que os demais. Não obstante, por contemporizar com seus irmãos, Rúben perdeu a oportunidade de salvar a José. Os ismaelitas chegaram no momento oportuno. Desta forma D-us operou usando homens maus para levar José ao Egito.

A forma pela qual os irmãos atuaram mostra como a inveja e o ódio podem endurecer a consciência humana. Passaram por alto a angustia e os rogos do jovem (42:21), sentaram-se tranqüilamente para comer pão depois de lançar José na cisterna. Depois de vendê-lo, felicitavam a si mesmos, sem dúvida, por sua misericórdia e bom tino para negócios. Mais tarde enganaram cruelmente a seu velho pai. Ao apresentar a túnica manchada de sangue, disseram-lhe insensivelmente: “Conhece agora se esta será ou não a túnica de teu filho”, como se José não fosse irmão deles. O fato de que as Escrituras relatem com franqueza os detalhes feios dos fundadores das tribos de Israel é evidência de sua autenticidade e inspiração. As lendas de outros povos sempre atribuem a seus fundadores características heróicas, porém não reconhecem falhas neles.

A angústia inconsolável do velho pai não está à altura de um homem que havia lutado com D-us e havia prevalecido. Embora não seja errado expressar o pesar. Parece que Jacó se esqueceu dos sonhos de José e não buscou o consolo divino. Pelo contrário, Jacó sentiu a perda do único filho que havia prezado o espiritual e que o havia consolado com sua presença e amor após a trágica morte de sua querida esposa Raquel.

José na casa de Potifar: Gn.39.1-20. Os midianitas não venderam José a uma pessoa desconhecida que vivia em um lugar obscuro e distante da civilização. Ao invés disso, levaram-no à própria capital do Egito e o venderam a Potifar, capitão da guarda real, pessoa de influência na corte de Faraó. Assim José foi colocado onde se lhe ofereciam as melhores oportunidades de conhecer os costumes dos egípcios, de ser iniciado na arte de governar e, sobretudo, de ser introduzido na presença de Faraó.

A sorte que um escravo corria era muito dura, pois uma vez feito escravo, permanecia escravo para sempre. À parte disto, José teria sofrido dolorosamente a saudade da casa e a falta do carinho de seu pai. Não obstante, uma vez levado, não deu sinais de protesto. Consagrou-se de boa vontade a cumprir seus deveres de escravo. Destacou-se como jovem consciencioso, industrioso e digno de confiança. Quatro vezes se diz no capitulo 39: “o Eterno estava com José”. O teólogo F.B.Meyer observa: “O sentido da presença e proteção do D-us de seu pai penetrava em sua alma e a tranqüilizava, e o guarda em perfeita paz”. Reconhecendo que D-us fazia José prosperar, Potifar fê-lo administrador de sua casa.

A integridade que José manteve diante da tentação apresentada pela esposa de Potifar contrasta notavelmente com a conduta de Judah registrada no capítulo anterior, Judah era livre e de sua própria vontade incorreu no pecado em um lugar que ele pensava ser um santuário cananeu. Por sua parte, escravo, longe do lar, José tinha todo o pretexto para ceder à tentação, porém lançou mão de duas armas: a divina e a humana. “Como pois faria eu este tamanho mal, e pecaria contra D-us?” Considerou esse ato de imoralidade como pecado contra seu senhor, contra a senhora, contra seu próprio corpo e sobretudo, contra D-us. Também usou a arma humana ao afastar-se dela e por fim fugiu quando a tentação se tornou forte. Ao ser caluniado, não reagiu acusando a mulher, nem ainda defendendo-se a si próprio. Parece que Potifar havia duvidado da verdade da acusação e se irou principalmente porque havia perdido um escravo tão bom. Em vez de matá-lo, que seria o castigo correspondente ao delito, Potifar impôs a José a pena mais leve possível em tais circunstâncias.

José na prisão: Gn.39:2 – 40:23. depois de haver trabalhado com tanto afinco, sem queixas, e de haver chegado a um lugar de prestigio incomparável, José foi objeto de calunias e caiu ao ponto mais baixo e com menos esperança que a de um escravo. Mas José guardou silencio confiando sua causa às mãos de D-us e trabalhando serena e diligentemente. Por que D-us permitiu que José fosse encarcerado? Ali aprenderia muito dos altos personagens que compartilhavam a prisão com ele. também o pesar e a privações, o jugo levado na juventude, tudo contribuiu para formar um caráter firme, paciente e maduro a fim de que José prestasse grandes serviços a D-us e aos homens quando chegasse o momento oportuno. Por último, sua estada no cárcere e sua faculdade de interpretar sonhos puseram-no em seu devido tempo em contato com Faraó.

Como deve ter brilhado o caráter de José no meio dos presos ressentidos e desanimados! Ele tinha consciência de que D-us o acompanhava e este era o segredo de seu êxito. O chefe da prisão notou sua industriosidade e sua responsabilidade e o encarregou do cuidado de toda a prisão e dos presos. No caso dos dois funcionários do rei, presos, vemos que José não permitiu que sua triste situação pessoal despojasse seu coração de solicitude por outro ou o cegasse para as necessidades deles. Por sua comunhão com um D-us amoroso, estava cheio de compaixão. Interrogou o copeiro e o padeiro, que estavam perturbados, e então lhes afirmou que D-us tinha a interpretação de seus sonhos. Embora as interpretações divinamente dadas a José se cumprissem ao pé da letra, viu ele frustradas as suas esperanças de que o copeiro intercedesse por ele perante Faraó. A demora é, com freqüência, parte da disciplina divina. Por isso D-us demorou também a libertação de José par proporcionar-lhe um cumprimento maior dos sonhos que lhe dera muitos anos antes.

Shabat Shalom !