NOACH
01.11.2003 / 06 de Cheshvan de 5764
Parashah: NOACH – Gn. 6:9- 11:32.
Haftarah – Is. 54:1- 55:5.
1. A corrupção da humanidade e a dor divina: Gn. 6:1- 8. Com o transcorrer do tempo, a separação entre os descendentes de Set e os de Caim cessou por causa do casamento das duas linhagens (6:2). A união dos piedosos com mulheres incrédulas foi motivada pela atração física de tais mulheres.
Sem mães piedosas, a descendência de Set degenerou-se espiritualmente.
Os filhos dos casamentos mistos eram “gigantes” (pessoas extraordinárias) e parece que se destacavam pela violência. Exaltavam-se a si mesmos, cada um procurando ser valente (herói) e também varão de renome. Corromperam a terra com sua imoralidade. Chegou o momento quando a família de Noé foi a única que cumpria as normas morais e espirituais de D-us. Parece que o anjo do mal (satanás), ao ver que não pode destruir a linha messiânica pela força bruta no caso de Abel, agora procura extingui-la mediante casamento mistos; e por pouco não teve êxito.
A corrupção e violência dos homens doeram a D-us e lhe pesava havê-los criado. Determinou D-us destruir a perversa geração. Horton observa que sua ira procedeu de um coração quebrantado. D-us concedeu a estes homens um prazo de 120 anos pra arrepender-se (6:3). Depois, se não o fizessem, retiraria deles seu espírito.
O propósito do dilúvio era tanto destrutivo como construtivo. A linhagem da mulher corria o perigo de desaparecer completamente pela maldade. Por isso D-us exterminou a incorrigível raça velha para estabelecer uma nova. O dilúvio foi também o juízo contra uma geração que havia rejeitado totalmente a justiça e a verdade. Isto nos ensina que a paciência de D-us tem limites.
2. Noé constrói a arca: Gn. 6:9- 22. Noé constrói um raio de esperança em uma época sombria. Seu pai Lameque provavelmente entesourava em seu coração a promessa de Gn. 3:15, pois deu o nome de Noé (descanso, consolo) a seu filho na esperança de que este viesse a ser um libertador (5:29), mas nunca sonhou de que maneira o Eterno cumpriria seu desejo expresso.
Noé destaca-se na Tanach como um dos mais completos varões de D-us. Somente ele, entre seus contemporâneos, achou a graça e o favor de D-us em forma pessoal (6:9), isto é, travou amizade com D-us e desfrutou da comunhão divina. Noé era justo e reto (6:9), uma pessoa de conduta irrepreensível, de integridade moral e espiritual no meio de uma geração perversa. Finalmente, era um proclamador da justiça. O segredo de seu caráter e constância encontra-se em seu andar diário com o Eterno.
D-us revelou a Noé seu plano de destruir a raça corrupta e de salvá-lo junto com sua família e, por ele, a humanidade inteira. Noé viria a ser o segundo pai da raça. Recebeu diretriz para a construção de uma nave flutuante bem proporcionada que seria o veículo de escape. Segundo certos cálculos, a arca teria 135m de comprimento, 22,5m de largura e 13,5m de altura e correspondia em tamanho a um transatlântico moderno. Constava de três pavimentos divididos em compartimentos e uma abertura de 45 cm de altura em volta, localizada entre espaços de parede na parte superior; acredita-se que tinha a forma de um caixão alongado. Alguns estudiosos calculam que a arca teria capacidade para 7.000 espécies de animais.
“Pela fé Noé. . . preparou a arca“. A Palavra de D-us foi a garantia única de que viria o dilúvio. Deve ter sido um projeto enorme e de longa duração construir e armazenar os alimentos necessários. Enquanto construía a nave, Noé propagava a necessidade da teshuvah, mas ninguém quis dar-lhe atenção. Sem dúvida alguma Noé e seus filhos eram alvos de incessantes zombarias, porém não vacilaram em sua fé. Acentua-se sua completa obediência: “conforme a tudo o que D-us lhe mandou, assim o fez” (6:22; 7:5).
3. D-us limpa a terra com o dilúvio: Gn. 7:1- 8:14. Sete dias antes de começar o dilúvio, D-us mandou que Noé, sua família e os animais entrassem na arca. Possivelmente D-us tenha feito que os animais pressentissem a iminente catástrofe e se tornassem mansos. Noé devia levar na arca um casal de animais de cada espécie (6:19) e sete casais dos animais limpos (7:2); os adicionais provavelmente era para fornecer carne e animais para o sacrifício. Supõe-se que a maioria dos animais estava invernando enquanto permaneciam na arca.
“O Eterno fechou a porta” (7:16). Significa que o período de graça (benevolência do Eterno para com o homem) já havia terminado; isto nos fala de redenção e juízo. Noé ficou dentro, protegido, e os pecadores impenitentes fora, expostos ao juízo. (Fato semelhante houve quando da décima praga sobre o Egito).
“Romperam-se todas as fontes do grande abismo e as janelas dos céus foram abertas” (7:11). Parece indicar que se produziram terremotos e estes fizeram que subissem impetuosamente as águas subterrâneas enquanto caiam chuvas torrenciais. Pensa-se que a terra, ao fender-se, produziu alterações nas suas superfície. Alguns crêem que estes verdadeiros cataclismos tenham sido acompanhados de gigantescos maremotos que atravessaram os oceanos e continentes até que nada restou da civilização daquele tempo. Foi um juízo cabal contra o mundo pecaminoso. Depois, D-us enviou um vento para fazer baixar as águas. Cinco meses após o começo do dilúvio, a arca pousou sobre o monte Ararate, porém Noé não saiu em seguida porque obedientemente esperou até receber a permissão divina. Ele e sua família permaneceram na arca aproximadamente um ano solar.
Qual foi a extensão do dilúvio? Foi universal ou limitado à área dos Oriente Médio? O Gênesis diz que as águas cobriram as montanhas mais altas e destruíram toda a criatura (fora da arca), sob os céus (7:19- 23). Não obstante, há diferença de opiniões entre eruditos. Alguns pensam que se refere somente à terra habitada daquele tempo, pois o propósito divino era destruir a humanidade pecaminosa. Dizem que o uso bíblico da expressão “toda a terra” amiúde significa a terra conhecida pelo autor (Gn. 41:57; Dt. 2:25).
Por outro lado, os que crêem que o dilúvio foi universal notam que o relato bíblico emprega expressões fortes e as repete dando a impressão de um dilúvio universal. Pergunta: Qual era a extensão da população humana? Parece-lhes possível que esta se houvesse estendido até a Europa e África. Além do mais, certos estudiosos crêem que as grandes mudanças na crosta terrestre e repentinas e drásticas alterações no clima de áreas geográficas, como Alasca e Sibéria, podem ser atribuídas ao dilúvio. Talvez, com o transcurso do tempo, os geólogos encontrem evidencias conclusivas para determinar qual seja a interpretação correta.
São encontradas em diferentes continentes, tradições que aludem a um grande dilúvio, inclusive detalhes da destruição de toda a humanidade, exceto uma única família e a escapatória em um barco. A famosa epopéia Gilgames, poema babilônico, contém muitas semelhanças com o relato bíblico, embora seja politeísta em seu enfoque. Parece que o dilúvio deixou uma impressão indelével na memória da raça, e que as tradições, por mais corrompidas que estejam, testificam do fato que houve um dilúvio.
4. Estabelece-se a nova ordem do mundo: Gn. 8:15- 9:17. Ao sair da arca, Noé entrou em um mundo purificado pelo juízo de D-us; figurativamente era uma nova criação e a humanidade começaria de novo. A primeira coisa que Noé fez foi oferecer um grande sacrifício a D-us como sinal de sua gratidão pelo grande livramento passado e como consagração de sua vida a D-us para o futuro.
D-us estabeleceu a nova ordem dando provisões básicas pelas quais a vida do homem se regeria na terra depois do dilúvio:
. Para dar segurança ao homem prometeu que as estações ficariam restabelecidas para sempre.
. Reiterou o mandamento de que o homem se multiplicasse.
. Confirmou o domínio sobre os animais dando-lhe permissão para comer sua carne, porém não o seu sangue.
. Estabeleceu a pena capital.
. Fez aliança como homem prometendo-lhe que jamais voltaria a destruir a terra por meio de um dilúvio.
Por que foi proibido comer o sangue? Alguns estudiosos crêem que o sangue é o símbolo da vida, a qual só D-us pode dar; portanto, o sangue pertence a D-us e o homem não deve tomá-lo. Há, porém, uma explicação mais bíblica, ou seja, a proibição preparou o caminho para ensinar a importância do sangue como meio de expiação (Lv. 17:10- 14). O sangue representa uma vida entregue na morte.
D-us estabeleceu a pena capital para restringir a violência. O homem é de grande valor e a vida é sagrada, pois “D-us fez o homem conforme a sua imagem“. O magistrado não traz debalde sua espada, instrumento de execução.
D-us fez um pacto com Noé e com toda a humanidade prometendo não mais destruir o mundo por dilúvio. Ao presenciar a terrível destruição pelo juízo de D-us, o homem poderia perguntar-se: “Valerá a pena edificar e semear? Pode ser que haja outro dilúvio e arrase tudo”. Mas, para dar-lhe segurança de que a raça continuaria e o homem teria um futuro garantido, D-us fez aliança com ele. Deixou o Arco-de-D-us (o termo “arco-íris” é uma alusão a deusa Íris, mensageira dos deuses) como sinal de sua felicidade. É provável que o Arco-de-D-us já existisse, mas agora se reveste de novo significado. Ao ver o Arco-de-D-us nas nuvens, o homem se lembra da promessa misericordiosa de D-us.
A aliança com Noé é a primeira que se encontra na Bíblia. A relação de D-us com seu povo mediante aliança veio a ser assunto importantíssimo. D-us estabeleceu sua aliança sucessivamente com Noé, com Abraão, com Israel (por meio de Moisés) e com Davi.
Que é uma aliança? Uma aliança humana é, em geral, um acordo mútuo entre duas partes com igual capacidade de firmá-lo; porém não é assim quanto às alianças divinas, porque D-us é quem toma a iniciativa, estipula as condições e faz uma solene promessa pela qual se prende voluntariamente em benefício do homem. Embora na aliança com Noé D-us se impôs a si mesmo a obrigação de guardar a aliança apesar dos fracassos do homem, em geral não é assim. D-us exige como contrapartida a fidelidade de seu povo. a desobediência de Israel podia romper o vínculo da aliança, pelo menos temporariamente.
5. Noé abençoa a Sem e Jafé: Gn. 9:18- 29.Noé, o homem justo perante o mundo, caiu no pecado de embriaguez em seu próprio lar. Os longos anos de fidelidade não garantem que o homem esteja imune a tentações novas. As diferentes reações dos filhos deram-lhe ocasião de amaldiçoar a Cam (Canaã - pode ser que estivesse seguindo os passos de seu pai, zombando dele) e abençoar a Jafé e a Sem (Origem dos Semitas - Hebreus).
Nota-se que a maldição se aplica a Canaã e aos cananeus somente e não aos outros filhos de Cam. Aparentemente, Canaã era o único filho que compartilhava a atitude desrespeitosa de seu pai. A maldição, portanto, não pode aplicar-se aos egípcios ou a outros camitas africanos.
Além do mais, é provável que os cananeus tenham sido amaldiçoados não tanto pelo pecado de Cam e de seu filho Canaã, mas pela notória impureza que caracterizaria os cananeus nos séculos vindouros. Os descendentes de Canaã radicaram-se na Palestina e na Fenícia (Gn.10:15-19), e eram notoriamente imorais. Olhando adiante, D-us viu o caráter que teriam e inspirou Noé a pronunciar seu castigo. D-us empregou uma nação semita, os hebreus, para retribuir-lhes a sua maldade mediante a conquista de Canaã por Josué. Em referencias posteriores aos juízos divinos sobre os cananeus, Moises o relaciona com a extrema impiedade deles (Gn. 15:16; 19:5; Lv. 20:2; Dt. 9:5).
A bênção sobre Sem, traduzida literalmente é: Bendito seja o Eterno, o D-us de Sem (9:26a) e implica que o Eterno seria o D-us dos semitas. Cumpriu-se notavelmente no povo hebreu, uma raça semita. Os descendentes de Jafé (os indo-europeus) seriam os hóspedes dos semitas, dando-lhes estes proteção e unindo-se, inclusive aos semitas, e se vê o primeiro anúncio da entrada dos gentios (Jafé) na comunidade cristã que nasceu dos hebreus (Sem).
6. Dispersão das nações: Gn. 10- 11.
a. Rol das nações: Gn.10. Se a promessa de redenção havia de ser realizada pela linhagem de Sem, por que o escritor sagrado dedicou tanto espaço traçando a origem das outras nações? Para demonstrar que a humanidade é uma: D-us “de um pó fez toda a gerações dos homens”. Também o escritor insinua que no plano de D-us as nações não seriam excluídas para sempre de sua misericórdia. Mediante o povo escolhido seriam benditas e viriam a ser participantes da comum redenção (redenção, ou salvação, para todos) .
Agrupam-se os povos não tanto por suas afinidades étnicas, mas segundo suas relações históricas e distribuição geográfica. Os descendentes de Jafé ocuparam a Ásia Menor e as ilhas do Mediterrâneo; formaram, inclusive, grupos como os celtas, citas, medos, persas e gregos. Os filhos de Cam povoaram as terras meridionais tais como: Egito, Etiópia, e Arábia. Canaã era o antigo povo da Palestina e Síria meridional antes da conquista dos hebreus. As nações semitas (elamitas, assírios, arameus e os antepassados dos hebreus) radicaram-se na Ásia, desde as praias do mar Mediterrâneo até o Oceano Índico, ocupando a maior parte do terreno entre Jafé e Cam.
Menciona-se a Ninrode como o fundador do império babilônico e construtor de Nínive e outras cidades (10:8- 12). Segundo Delitzsch, Ninrode significa “rebelar-nos-emos” e é possível que seus contemporâneos lho tenham atribuído por parecer mais um sobrenome que seu próprio nome. Destacou-se por ser o primeiro “poderoso na terra” (foi o primeiro potentado) e “poderoso caçador”. Alguns pensam que figurativamente significa que era “caçador de homens” (escravagista). Babel (Babilônia) veio a ser o símbolo do opressor do povo de D-us após o cativeiro babilônico. Alguns estudiosos julgam que Ninrode prefigura o homem iníquo que será o último e pior inimigo do povo de D-us.
b. A torre de Babel: Gn. 11:1- 19. A cidade de Babel foi edificada na planície que se encontra entre os rios Tigre e Eufrates. Por que desagradou a D-us a construção da torre de Babel?
. Os homens passaram por alto o mandamento de que deviam espalhar-se e encher a terra (9:1; 11:4); um dos motivos que os impulsionavam e pelo qual levaram a cabo a construção era que desejavam permanecer unidos. Sabiam que os edifícios permanentes e uma coletividade firmemente estabelecida produziria um modelo comum de vida que os ajudaria a permanecer juntos.
. Foram motivados pela intenção de exaltação pessoal (”façamo-nos um nome” - disseram) e de culto ao poder que posteriormente caracterizou Babilônia. Uma torre elevada e assim visível para todas as nações seria um símbolo de sua grandeza e de seu poder para dominar os habitantes da terra.
c. Excluíram a D-us de seus planos; ao glorificar seu próprio nome, esqueciam-se do nome de D-us, nome por excelência: o Eterno.
D-us desbaratou seus planos não só para frustrar-lhes o orgulho e independência, mas também para espalhá-los, afim de que povoassem a terra. Com escárnio se chama Babel (confusão) a cidade; originalmente queria dizer “Porta de D-us”. Por meio deste relato evidencia-se a insensatez de edificar sem D-us.
Tiramos deste tema uma grande lição: Quando os homens, motivados pelo orgulho, vangloriam-se de seu êxitos, nada resulta exceto divisão, confusão e falta de compreensão; mas quando se proclamam as obras maravilhosas de D-us, todo homem pode ouvir o outro em seu próprio idioma.
7. Genealogias de Sem e de Abraão: Gn. 11:10- 32. A história das nações gira agora em torno da genealogia dos semitas, a linhagem da promessa divina feita por meio de Noé (9:26a). Depois o horizonte se reduz aos antepassados de Abraão. Prepara-se, assim, o caminho para começar a história do povo escolhido de D-us.
A maioria dos estudiosos identifica a cidade natal de Abraão, Ur dos caldeus, com as ruínas de Mukayyar (montículo de betume) a 225 km ao sudeste da Babilônia. Estava sobre o rio Eufrates e se calcula que possuía 24.000 habitantes. Era a antiga capital da região civilizada e próspera da Suméria, considerada o berço da civilização. Era também o centro do culto imoral à deusa lunar Nanar-Sin. Ainda se vêem algumas ruínas de edifícios bem elaborados no local religioso da cidade. Entre eles está um zigurate (torre escalonada). Havia casas de dois pavimentos, possuíam sistemas de cloacas e também escolas. Têm sido achados no cemitério desta cidade tesouros que remontam a 3.000 anos. Existem provas, contudo, de outra Ur ao norte de Harã, situada onde se encontra a atual cidade de Edessa. Abraão, portanto, procedia de uma civilização altamente desenvolvida.
Shabat Shalom !
