HAAZINU

30.09.2006 / 08 de Tishrei de 5766.

Parashah – HAAZÍNU – Dt.32:1–32:52
Haftarah – Jl.2:15-27; II Sm.22:1-51

A Parashah de Haazínu coroa dignamente a grandiosa obra de Moises pela sua magnificência e elevação de pensamento. O profeta reuniu, nela, todas as riquezas da poesia e da eloqüência para fazer penetrar na alma de seu povo a sua preciosa prédica:

Que a minhas palavras sejam para vós como a chuva que penetra na terra, a fecunda e a vivifica; como o orvalho bendito que sempre traz proveito“.

Após esta poética introdução, Moisés resume em poucas palavras a história dos Hebreus, evocando seu passado, sua modesta origem, suas felicidades e suas iniqüidades; mais adiante, ele adverte sobre as desgraças que alcançarão ao povo, que embriagado pela fortuna, esquecerá a sua missão moral, para entregar-se inteiramente aos prazeres materiais.

E engordou-se Israel e deu coices; engordou-se, engrossou-se, cobriu-se de gordura, e abandonou o D-us, que o fez e desprezou o Forte da sua salvação” Dt.32:15.

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Ouvi, ó céus, e falarei; e ouça a terra os ditos da minha boca.
Dt.32:1

Moisés dirige-se nesta Parashah aos céus e a terra para que ouvissem as suas palavras. Segundo o Midrash, a razão desta magnífica invocação foi a seguinte:

Eu sou, disse Moisés, um ser de carne e osso, sujeito a morrer; os meus sucessores o serão de igual forma; se o povo de Israel vier a esquecer a Lei e transgredir a Divina Aliança, que lhe faria lembrar a sua desobediência e infidelidade? Eu vou chamar contra eles testemunhas permanentes, os céus e a terra. Ouvi ó céus e falarei, e ouça a terra os ditos da minha boca. É a vós que eu invoco; eu chamo os céus e a natureza inteira para encaminhar Israel na senda do bem e desviá-lo da via do mal e da ingratidão humana. Que os céus e a terra sejam os eternos censores do povo de D-us. Nós os condutores dos povos passamos, e vós ficareis para sempre!

Comigo está a vingança e o pago; retribuir-lhes-Ei quando resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e, o seu destino se apressa em chegar. Dt.32:35

Até este versículo, Moisés disse-lhes palavra de admoestações, fazendo o quadro negro das catástrofes que o atingiram. De aqui em diante, falou-lhes palavra de consolo: “Quando D-us ver que o poder do inimigo se fortalece muito e que os israelitas já foram suficientemente abandonados à mercê deles, salvá-los-á (Dt.32:36). Esta profecia de Moisés, repetiu-se várias vezes, no curso da longa e dolorosa história de Israel, inclusive em nossos dias. Hoje, mais do que nunca, deverá fazer-se sentir, entre nós, este discurso de Moisés: “Aplicai o vosso coração a todas as palavras que hoje testifico entre vós, para que ordeneis a vossos filhos, para que cuidem de cumprir todas a palavras desta Lei; porque isto não é coisa vã, mas é vossa vida, e por esta coisa prolongareis dias nas terra para a qual, estais passando o Jordão, a fim de herdá-la”. (Dt.32:46, 47)

Shanah Tovah!

NITZAVIM / VAYELECH

16.09.2006 / 23 de Elul de 5766.

Parashah – Nitzavim / Vayelech – Dt.29:9- 30:20/31:1- 30
Haftarah – Is.61:10- 63:9 / Is. 50:6- 13

Vós todos estais hoje presentes diante do Eterno, vosso D-us; Os cabeças de vossas tribos, vossos anciãos, e vossos policiais, todo o homem de Israel; 29:9.

Moisés fez reunir, no dia de sua morte, todo o povo de Israel a fim de introduzi-los na aliança, diante do Eterno. Esta concepção da aliança, chamada “Berith”, domina o Mosaismo e constitui um dos nomes pelo qual é designada a religião israelita. Os israelitas fiéis à Lei de Moisés são denominados “Filhos da Aliança” (Bené-Berith). Esta aliança de D-us, com a descendência dos patriarcas, foi feita para que ela ensinasse o caminho do Eterno, o direito, a justiça e a caridade as outras famílias da Terra. O sinal material desta aliança é a circuncisão, e o sinal espiritual é o sábado, dia destacado entre os dias da semana. Esta aliança é entre o D-us Único e o povo predileto, ligado a este pacto pelos mandamentos da Torah, “Não foi com nossos pais que fez o Eterno esta aliança, e, sim, conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos“. Dt.5:3.

No começo desta parashah enfrentamos-nos com um magno e imponente quadro: Todo o povo reunido, desde os altos dignitários, anciãos e polícias, até os rachadores de lenha e tiradores de água; até mesmo as mulheres e as crianças, todo o povo de Israel, pois, perante D-us, todos são iguais. A união de um povo sem distinção de classe, mostra a solidariedade dos indivíduos que o compõem, e esta á uma das condições de sua existência, pois, o povo não é uma aglomeração de células, porém um organismo, com vida própria, onde cada um possui o seu ser igual ao outro, uma alma própria, e é com este espírito que Moisés reuniu a todos, sem exceção alguma. Cada pessoa tem uma finalidade em sua própria existência, e forma uma parte da comunidade. Foi esta solidariedade que converteu o povo israelita, em povo imortal. “Vós todos estais, hoje, presentes!” (atém nitzavim hayom – 29:9): quantos povos não estão mais, enquanto vós o estarei para sempre, desde que sejais solidários uns com os outros e reconhecerdes a aliança que o Eterno vosso D-us faz convosco.

Não está nos céus para dizeres: Quem subirá por nós aos céus, que nô-lo traga, e nô-lo faça ouvir, para que o observemos? 30:12.[//i]

A Lei e o dever, diz Moisés, não são coisas que estão fora do nosso alcance; não se encontram nos céus nem além do mar! Não há que ir longe, para encontrá-los. Olhai em vós mesmos, interrogai a vossa consciência, é lá que os encontrareis. Estas coisas estão pertinho de nós; em nossa boca e em nosso coração; elas se manifestam, a quem se dá o trabalho de descobrí-las.

Uma outra interrogação do Midrash (Yalcut 940) diz, que a ciência sagrada não se deve procurar nas pessoas, cuja vaidade vai até os céus e despenca no oceano da vida. O verdadeiro sábio não conhece o orgulho; ele sabe muito bem que a sua ciência e inteligência não alcançarão jamais o infinito e o absoluto. Concluindo:[i] O conhecimento da Lei Sagrada, só pode residir nas pessoas modestas.

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E disse Moisés: “Hoje completo cento e vinte anos de idade; já não poderei mais sair e entrar; e o Eterno disse-me: Não passarás este Jordão”. Dt.31:2

Com estas palavras, Moisés queria dizer que não tinha mais a permissão de ensinar a Lei ao povo, e que ele devia, por mandado de D-us, ceder o seu lugar a Josué. A outra versão de Rashi, diz, que Moisés, tendo completado os seus anos (cento e vinte), sentia que lhe faltava aquele vigor intelectual para ensinar ao povo a palavra de D-us. Não podendo mais “sair e entrar” (nos caminhos da ciência sagrada) Moisés devia ceder o seu lugar a outro. Quanto ao vigor físico, este, nunca lhe faltou, segundo lemos mais adiante: “E Moisés tinha a idade de cento e vinte anos, quando morreu; não se lhe escureceram os olhos, nem se lhe transformou o esplendor do seu rosto”. Dt.34:7.

E Moisés escreveu esta Lei e a deu aos sacerdotes, filhos de Levi (v.9). “Esta Lei” quer dizer: desde o Gênesis até o fim do Pentateuco, que Moisés lhes entregou, antes da sua morte: entretanto o termo “esta Lei”, a do versículo onze, significa uma parte do Deuteronômio.

Quando todo Israel vier a comparecer diante do Eterno, teu D-us, no lugar que escolher, lerás esta Lei diante de todo Israel, aos seus ouvidos. Dt.31:11

Este mandamento de ler a Torah cabia ao rei de Israel. Em “Hol hamoed” (medianos) da festa de Sucot (cabanas) no começo do primeiro ano da Shemitá (ano sabático) tocavam-se as trombetas em Jerusalém, a fim de reunir o povo. Traziam uma bima (estrado) de madeira que colocavam na ezrat nashim (seção reservada para as mulheres, no Templo) e o rei sentava-se lá e todo Israel reunia-se ao redor. Então, o oficiante da congregação, pegava o rolo da Torah e entregava-o ao chefe da congregação, e assim passava de um para o outro, até que chegava às mãos do sumo sacerdote, o qual entregava-o por sua vez, ao rei. Este o recebia, e estando ele de pé, pronunciava a bênção da Torah e lia desde o começo do Deuteronômio até o trecho da “Shemá, asser teasser”, as admoestações da parashah de Ki Tavó, pois estes trechos estimulam a cumprir os preceitos da Torah e fortalecem a fé em D-us. Depois, o rei pronunciava a última bênção da Torah, sempre em hebraico. Nesta cerimônia, o rei representava o Estado, e a leitura da Torah significava a submissão de todo o povo ante a Lei Divina.

Shabat Shalom!

A QUESTÃO É . . . (IV)

Carta Aberta
de François Leotard (ex-Ministro da França)
a Mahmoud Ahmadinedjad (Presidente do Irã)

Senhor Presidente:

Francamente, ao começar esta carta, não me motivaria a chamá-lo deste modo. Esse título implica um mínimo de respeito. O faço, no entanto, porque é o senhor que se expressa em nome dos iranianos. Nas fotos, vejo o senhor diante de multidões, com rostos e mãos levantadas.

Sem dúvida, qualquer um poderia adivinhar certa forma de entusiasmo e, nesse caso, de adesão. A Europa já conheceu essas multidões. Foi um mau momento para nós. Um período trágico, do qual seguimos arrastando a vergonha e a angústia.

Um dos povos mais cultos do mundo, um povo que elevara a um alto grau a filosofia, a música, a poesia, um povo que havia assombrado seus vizinhos com seu resplendor, havia se afundado no ódio, na loucura racial, na ignomínia.

Dezenas de milhões de indivíduos sofreram, na carne, na cultura, na dignidade, essa estranha barbárie que se dizia chamar de “nova ordem”. Foram, primeiramente, os próprios cidadãos desse Estado, alemães, e depois, pouco a pouco, os demais, todos os demais.

Essa loucura foi chamada de Guerra Mundial.

Mas foi, acima de tudo, uma guerra contra o que havia de humano em nós mesmos. Livros foram queimados, as crianças foram deportadas e assassinadas, as inteligências foram quebradas. Tudo o que nos honrava como homens foi pisoteado.

E logo chego ao senhor: uma parte da espécie humana, o povo judeu, foi destinado ao inferno. Está bem, eu lhe concedo, foi só uma parte. Não eram, nem os mais numerosos, nem os mais ricos, nem sequer os mais influentes.

Eram homens e mulheres que haviam levado consigo, durante muito tempo, e desde tempos longínquos, sua fé, suas perguntas sobre o mundo, sobre Deus, sobre a necessidade de viver ou de sofrer, sobre a alegria de amar. Geralmente, freqüentavam os livros. Refletiam muito, não compreendendo porque não eram queridos, porque se lhes chamava de sub-humanos, “Untermentsch”, porque eram considerados insetos.

Foram perseguidos em toda a Europa, enforcados, fuzilados, queimados…

O senhor, com certeza, sabe disso tudo, mas aqui o relembro, perante o senhor, pelo menos por três razões:

A primeira, é que nós (digo “nós”, como modo de falar) não aceitaremos que tudo volte a começar. Eu não sou judeu, mas os judeus são, como os persas, meus irmãos na humanidade. A segunda, é que eles têm o direito, como o senhor, como eu, de ter uma pátria. Que seja a França ou Israel, isso em nada muda o assunto. A terceira razão o senhor não irá gostar. Mas, paciência: é que eles aportaram ao mundo (e é provavelmente isso que o senhor quer “varrer do mapa”) uma concepção do homem e de seu destino que vem enriquecendo a civilização há vários séculos, o que honra tanto ao povo judeu, quanto ao Estado de Israel.

Presidente, o senhor tem o direito de ser nacionalista. O senhor tem o direito de sentir-se orgulhoso da história do povo persa. O senhor tem o direito de ser crente e orar a Deus “clemente e misericordioso” citado no começo de cada sura do Corão.

O senhor, entretanto, pensa que tem o direito de obrigar às mulheres a ocultar o rosto atrás de um véu, de torturar seus opositores, de encarcerar os jornalistas que o contradizem, de condenar crianças à morte, de perseguir minorias, de iniciar “guerras santas” contra os “infiéis”.

Mas o senhor não tem o direito de impor a Israel o olhar turvo, imbecil e cheio de ódio que acompanha seus discursos. E me parece que o senhor odeia nesse Estado, a liberdade de expressão, a diversidade partidária, o papel da oposição, a modernidade, a independência dos poderes e da justiça, a investigação universitária, as descobertas e os novos inventos e, sem dúvida, a valentia que ali existe. Quer dizer, tudo o que nós temos o direito de admirar.

Os homens que organizaram a reunião de Wannsee, na qual se decretou o extermínio dos judeus da Europa, já morreram. Naturalmente, a igual que todos nós, o senhor seguirá esse destino. Desejo, somente para o senhor mesmo, para o povo persa, para as crianças do Irã que lhe sobreviverão, que ninguém se sinta com vontade de cuspir sobre seu túmulo.

FRANÇOIS LEOTARD (ex-Ministro francês), julho de 2006.

Tradução: Jorge Ignácio Szewkies