8 de Novembro de 2008 / 10 de Cheshvan de 5769.
Parashah - LECH L’CHA – Gn.12:1 - 17:27
Haftarah – Is.40:27-31; 41:16
No Bereshit (Gênesis), dos capítulos 12 até 50, temos a História Patriarcal que passa a ser relatada nas próximas dez parashot, iniciando na presente e indo até Vayechi.
Ao começar a história de Abraão, o escritor inspirado deixa para trás a história primitiva da raça em geral para relatar a de uma família. Reúne as lembranças que se conservam “os grandes antepassados de Israel: Abraão, Itzak, Iakov (Jacó) e Iosef (José)”. Todos eles se destacam como homens que ouvem a voz de D-us e a obedecem. Todos os seus momentos estão assinalados pela intervenção divina. O grande propósito de D-us aos escolher essas pessoas é formar um povo que realiza a sua vontade na terra e seja um meio de cumprir o plano da salvação.
O período patriarcal começa por volta do ano 2000 aeC e dura mais ou menos três séculos.
O chamado de Abraão
É sem dúvida o acontecimento mais importante do Tanach. Aqui tem início a obra da redenção que foi instituída no jardim do Éden (3:15). Os primeiros onze capítulos do Gênesis demonstram que D-us se relacionava com a humanidade em geral, sem fazer distinção entre as raças. Tanto o mundo antediluviano como o da torre de Babel ressalta que a despeito do progresso material e do nascimento das civilizações, o homem fracassa moral e espiritualmente. Até aqui, o Eterno havia posto os olhos sobre diferentes indivíduos, que eram os meios apropriados para conservar a “semente da mulher” e o conhecimento de D-us. Agora ele muda seus métodos. Chama a um homem para fundar a raça escolhida mediante a qual realizaria a restauração da humanidade. O espaço que o livro do Gênesis concede a esta passagem demonstra sua importância. Os primeiros onze capítulos abrangem mais tempo do que todo o restante da Tanach. Trinta e nove capítulos, porém, são dedicados aos começos da nação escolhida, da qual virá o Messias.
Abraão é o personagem mais importante do Gênesis, e um dos mais importantes de toda a Tanach. Moisés dedicou meramente onze capítulos ao que aconteceu antes de Abraão, enquanto que treze capítulos se referem exclusivamente à vida pessoal do patriarca. D-us usou Abraão para fundar tanto a família de Israel como a fé dos hebreus. As três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, reverenciam-no como o pai de sua fé. Em realidade, a Tanach declara que o “povo escolhido” não se refere somente à descendência carnal do patriarca, mas a todos quantos tem a mesma fé que Abraão tinha. Isto é, ele é o pai espiritual de todos os que crêem em D-us. Somente a Abraão se chama “amigo de D-us” II Cr.20:7.
Considerando que a religião do Eterno consiste no ato de depositar a fé em um D-us pessoal, Abraão tinha de aprender a confiar nele implicitamente. D-us cultivou de três maneiras a fé que Abraão tinha: dando-lhe grandes promessas, pondo-o à prova cada vez mais, e concedendo-lhe muitas aparições divinas. Era preciso que Abraão conhecesse a D-us, pois esse conhecimento era a base de sua fé.
D-us chama a Abraão: primeira prova. (12:1-9). A família de Abraão e, provavelmente, o próprio Abraão prestava culto a vários deuses (Js. 24:2). Não obstante, as Escrituras insinuam que ainda assim tinham certo conhecimento do Eterno, pois Abraão em sua velhice enviou seu servo para buscar entre eles uma esposa para Itzak, seu filho. Seu motivo era religioso; queria ter uma nora que adorasse ao Eterno. Por isso, em meio da idolatria universal, D-us se manifestou a Abraão, chamando-o para uma vida de fé e separação.
As promessas feitas a Abraão são interessantes. Abraão seria famoso e reverenciado, não por sua própria virtude, mas pelo favor de D-us, que disse: “abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome”. Abraão tinha a responsabilidade de ser um canal de bênção para outros: “tu serás (deverás ser) uma bênção” (D-us nos abençoa para que sejamos bênção). Finalmente, D-us prometeu abençoar ou amaldiçoar aos homens segundo a atitude que tivessem para com Abraão: “E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”! Assim D-us o protegeria.
As transcendentais promessas feitas a Abraão e aos seus descendentes são três:
* Herdariam a terra de Canaã.
* Chegariam a ser uma grande nação (a grandeza prometida significa muito mais do que uma população numerosa).
* Por meio deles, todas as linhagens da terra seriam abençoadas (esta é a promessa messiânica).
A primeira prova à qual D-us submeteu a Abraão foi a separação de sua pátria e de sua família. Tinha de voltar as costas para a idolatria a fim de poder ter comunhão com D-us. A vida de fé começa com a obediência e a separação. “Ou nossa fé nos separa do mundo, ou o mundo nos separa de nossa fé”. Abraão foi o Cristóvão Colombo do Tanach, pois “saiu, sem saber para onde ia”, tinha de confiar incondicionalmente no Eterno.
Parece que no principio a obediência foi apenas parcial. Foi com Terah, seu pai, até Haran, centro de reunião de caravanas e também do impuro culto a Sin, deusa da Lua. Terah havia renunciado a seus pais, mas aparentemente não havia abandonado de todo sua idolatria. Em Haran radicou-se para viver o restante de sua vida, mas depois D-us guiou a Abraão a seguir rumo a Canaan, distante 650 km.
Por fim, chegou à terra que D-us lhe havia indicado. Agora vivia como estrangeiro e peregrino, viajando de um lugar para outro. Nunca foi dono de um metro quadrado de terra, a não ser o local de sua sepultura. Shchem (Siquém), a encruzilhada da Palestina, situada a 50 km ao norte de Jerusalém, foi a sua primeira parada. Depois chegou ao carvalho de More, considerado o centro de adivinhações e idolatria. Ali D-us apareceu a Abraão, segurando-lhe de novo sua presença e confirmando-lhe que sua descendência herdaria Canaan. Assim D-us o recompensou por sua obediência. Abraão respondeu construindo um altar e oferecendo culto público ao Eterno. A onde que ia, levantava sua tenda e edificava um altar. A expressão hebraica indica que Abraão invocou em alta voz o nome do Eterno; uma proclamação do nome, da natureza e do caráter de D-us. De modo que Abraão tinha comunhão com D-us, e ao mesmo tempo testificava perante o mundo.
A fome: a segunda prova. (12:10-20). Por falta de fé Abraão foi para o Egito. D-us não lhe havia ordenado sair da Palestina. Recorreu à mentira para escapara do perigo (ainda que houvesse um elemento de verdade no que disse; 20:12). “Não duvidou por incredulidade” das grandes promessas, porém tropeçou nas pequenas coisas. É de surpreender que Sara tenha sido considerada mulher atraente, já que tinha sessenta e cinco anos; mas como viveu 127 anos, naquela altura seria como outra mulher aos quarenta.
Abraão não edificou nenhum altar no Egito, Saiu humilhado, reconhecendo que D-us é santo. Até a escrava egípcia Hagar e o aumento de gados obtidos no Egito lhe causaram problemas mais tarde. Aprendeu quão perigoso é afastar-se de D-us. À semelhança do acontecido no episódio em Gênesis capítulo 20, D-us demonstrou sua fidelidade. Trouxe seu juízo sobre os que ameaçavam o plano divino de que Sara fosse a antecessora de Israel.
Contenda sobre pastagens: a terceira prova. (Gn.13). Lot, sobrinho de Abraão, acompanhava-o desde sua partida de Ur. Como seu tio, Lot havia adquirido grande soma de gado e servos. Surgiu uma contenda entre os pastores dos dois senhores, porque se tornava difícil encontrar água e pastos suficientes para os rebanhos de ambos. Parecei a Abraão melhor separar-se antes que brigar. Apresentou seu argumento: “porque somos irmãos”. Por direito de antiguidade, Abraão poderia ter escolhido sua parte do terreno; não obstante, permitiu que seu sobrinho escolhesse, demonstrando assim a generosidade do homem que vivia pela fé. Lot escolheu egoisticamente, guiando-se pelas aparências, e teve de sofrer as conseqüências mais tarde. É exemplo do homem carnal que busca em primeiro lugar as coisas do mundo e no fim perde tudo. Por outro lado, D-us recompensou Abraão: disse-lhe que olhasse em seu derredor, pois toda a terra ao alcance de sua vista seria sua, inclusive à parte de seu sobrinho Lot. Também devia percorrer a terra de Canaan no seu comprimento e largura. “Significa que Abraão podia sentir-se tão livre na terra como se tivesse em suas mãos a escritura legal”. Certamente deve ter-se alegrado pela fé no que D-us lhe havia dado. Além do mais, D-us prometeu que seus descendentes seriam inumeráveis. Quanto melhor foi para Abraão haver ocupado o segundo lugar deixando seu futuro nas mãos de D-us.
Abraão liberta a Lot: (Gn.14). Uma vez que Lot escolheu a melhor terra de pastagem antes que a vontade de D-us, de imediato se encontrou em Sodoma. Esta cidade foi atacada depois por forças inimigas e Lot sofreu o castigo de sua insensatez.
Os detalhes históricos do capitulo 14 concordam exatamente com o que a arqueologia tem descoberto acerca daquela região nessa época. A área de Canaan estava bem povoada e havia cidades-estados governadas por xeques (senhores locais). Em regra geral, eram vassalos de reis mais fortes. Elão, pai ao Oriente da Suméria, tinha domínio sobre Babilônia e os demais países da região. As cidades ao sul do mar Morto eram seus vassalos. Os invasores tomaram o caminho real, descendo pelo leste do Jordão até o deserto e depois subindo rumo ao mar Morto. O vale de Sidim (14:3, 10), ao sul do mar Morto tinha poços de betume (14:10); agora estão coberto pelas águas, mas ainda o mar Morto, nessa área, lança betume em quantidade.
Ao ser avisado do desastre militar que haviam sofrido as cidades do vale, Abraão armou seus 318 servos, conseguiu a ajuda de seus aliados amorreus e perseguiu os invasores. Recuperou os cativos e o despojo, mediante um ataque surpresa à noite. Em parte a excessiva confiança que os vencedores tinham em si mesmos, nascidas de seus fáceis triunfos anteriores e a resolução inesperada de Abraão e seus aliados, influíram na vitória sobre o formidável exército. Não obstante, o elemento mais importante foi à intervenção de D-us (14:20).
D-us faz aliança com Abraão: (Gn.15). Por que o Eterno disse a Abraão: “não temas?” Parece que Abraão se encontrava em um estado depressivo depois de chegar ao clímax de um testemunho intrépido. Voltariam os quatro reis para vingar-se dele? Havia sido néscio não aceitando o despojo de Sodoma, que bem lhe pertencia? D-us lhe deu confiança dizendo que ele próprio, D-us, seria seu defensor e o recompensaria grandemente. Mas Abraão se entristecia por não ter filho. Eliezer seria seu herdeiro? Naquele tempo, se um homem não tinha filhos, a herança podia recais sobre um servo fiel. Porem D-us lhe prometeu que ele teria um filho, e seus descendentes seriam inumeráveis como as estrelas do céu. Abraão reconheceu que a promessa era humanamente impossível, “creu no Eterno, e foi-lhe imputado isto por justiça”. Este é um dos versículos mais significativos da Bíblia. Em face da fé que Abraão possuía, D-us o aceitou como se fosse um homem justo. É a primeira indicação clara da doutrina da justificação pela fé. A frase “creu no Eterno” significa literalmente em hebraico “apoiou-se no Eterno”. Era mais do que aceitar intelectualmente a promessa: refere-se a confiar incondicionalmente na pessoa de D-us e em sua promessa. Abraão colocou-se a si mesmo e seu futuro nas mãos de D-us.
D-us prometeu a Abraão, uma terra que se estenderia do Nilo até Eufrates. Israel nunca ocupou toda a terra que D-us lhe prometeu, e parece que a promessa ainda se cumprirá. Não obstante, os hebreus ocuparam Canaan no tempo de Josué e sua nação chegou ao apogeu quanto à extensão territorial na época de Davi.
Canaan está na encruzilhada entre três continentes: Europa, Ásia e África. D-us poderia ter colocado seu povo em um lugar mais protegido, porém escolheu uma terra estratégica onde os israelitas pudessem exercer maior influência no mundo.
D-us confirmou sua promessa fazendo uma aliança solene com Abraão, segundo o costume da época (Jr.34:17- 20). As partes contratantes se punham cada um à extremidade do animal dividido e passavam por entre as metades, Assim expressavam que “se não cumprir minha parte do pacto, posso ser cortado em pedaços como este sacrifico”. Neste caso, porém, somente o Eterno passou, em forma de um forno fumegante e uma tocha, pois sua aliança era unilateral, uma iniciativa divina, e somente Ele poderia cumpri-la. O que cabia a Abraão era simplesmente aceitar a aliança e continuar crendo em D-us.
O cumprimento da aliança não começaria até que os descendentes de Abraão tivessem vivido 400 anos em terra alheia, onde seriam oprimidos e escravizados. Seus opressores, porém, seriam julgados e os hebreus sairiam com grande riqueza. Assim D-us preparou seu povo para suportar os padecimentos antes de apossar-se da Canaan.
Hagar e Ismael: (Gn.16). Uma das provas mais difíceis que Abraão e Sara tiveram de suportar foi a longa demora antes de receberem o filho. Por que tardou tanto tempo em cumprir-se a promessa? D-us queria que eles soubessem que o cumprimento da promessa não seria o resultado de esforços humanos, mas da pura graça, um milagre. Ao passar dez anos em Canaan sem ter filhos, Sara procurou ajudar a D-us a fim de que se cumprisse a promessa. Segundo a lei mesopotâmica daquela época, uma esposa estéril podia dar a seu marido uma serva como mulher e reconhecer como seus os filhos nascidos dessa união. Abraão, em um momento de incredulidade, cedeu ao plano de Sara, porém as conseqüências foram tristes. Havia inveja e conflitos no lar. Hagar reagiu ante o tratamento dura de Sara conforme a seu nome, pois a palavra Hagar significa “foge” (errante).
Selada a aliança com a circuncisão: (Gn.17:1- 18:15). Abraão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Haran e agora estava com noventa e nove. Havia andado treze anos pela fé desde a ultima revelação divina. A perspectiva de ter um filho por meio de Sara, parecia muito remota e Gênesis 17:18 indica que Abraão já pensava em Ismael como substituto do filho prometido.
D-us apareceu a Abraão para fortalecer sua fé minguante, para dar-lhe uma suave repreensão e renovar o pacto, se revelou com El Shadai. El significa D-us e ressalta seu poder; o significado exato de Shadai é incerto; sabe-se, porém, que se refere à sua onipotência e suficiência. Assim D-us animou a Abraão mostrando-se como o D-us Todo-poderoso, capaz de fazer tudo o que havia prometido. Anda em minha presença e sê perfeito, eram as condições para que o pacto fosse cumprido.
D-us deu dois sinais para confirmar a aliança: a mudança de nomes e a circuncisão. Já não se chamaria mais Abrão (pai enaltecido), mas Abraão (pai de uma multidão). Aparentemente, a mudança de Sarai para Sara era simplesmente mudar de um, a forma para outra palavra que tem o mesmo significado. Não obstante, a mudança elevou-a a uma posição de alta dignidade no pacto. Uma mudança de nomes é sinal do favor divino, mas como escarneceriam os cananeus das pretensões inerentes aos novos nomes deste velho casal? D-us denomina o que ainda não é como se já o fosse
Embora a circuncisão fosse praticada por outros povos, aqui é dada como sinal da aliança entre o Eterno e seu povo. Também tinha grande significado simbólico. Os profetas falaram da circuncisão do coração e dos ouvidos, referindo-se à obediência à lei de D-us. Representava purificação e renovação do coração (Dt.10:16; Jr.4:4).
Ao ouvir a promessa de que Sara daria a luz um filho, Abraão riu-se; pôs em dúvida a capacidade geradora de si mesmo e da sua esposa, e exclamou: “Oxalá que viva Ismael diante de teu rosto!”
O riso de Abraão seria secundado pelo riso de Sara (18:12). Portanto D-us deu ao filho prometido o nome de Itzak, que significa riso. Quando Itzak nasceu, o riso incrédulo de Sara converteu-se em riso de gozo: “D-us me tem feito riso (21:6). Foi necessário que D-us repreendesse a Sara a fim de que ela cresse. O cumprimento da promessa dependia da fé de ambos”. Haveria coisa difícil ao Eterno?
Shabat Shalom !
MSc. Moshe ben Mazal